A vida política, como um velho jardim, exige tanto a robustez das árvores antigas quanto o vigor dos novos brotos. Sem a memória e a sustentação das raízes firmes, falta chão; sem a floração renovada, o jardim estanca, e a terra, por mais fértil que seja, se esgota. É neste compasso de tempo e transformação que se deve aquilatar o recente anúncio da deputada federal Benedita da Silva, que, em documento enviado às instâncias nacionais do Partido dos Trabalhadores, formalizou sua candidatura ao Senado pelo Rio de Janeiro para 2026, indicando Manoel Severino dos Santos como seu primeiro suplente. Sua trajetória, rica em mandatos e lutas, é incontestável, um testemunho de compromisso com a ampliação de direitos e o combate às desigualdades, como ela própria ressalta. Ambos, ela e seu suplente, são fundadores do PT, forjados em uma caminhada política que se confunde com a história do partido.
Não obstante o valor inestimável de uma carreira dedicada ao serviço público, a forma e a antecipação deste movimento político trazem à tona preocupações legítimas que exigem mais do que o aplauso automático à história. A formalização tão precoce de uma chapa, especialmente com figuras de tamanha longevidade e vinculação pessoal, levanta a questão se o ímpeto de consolidação não estará, mesmo que involuntariamente, inibindo o surgimento de novas lideranças e o debate interno necessário para a vitalidade democrática. Afinal, um partido político, como um dos corpos intermediários que compõem a sociedade, tem o dever de ser um canal de representação genuína do povo, e não um espaço para a autoperpetuação de uma elite, por mais bem-intencionada que seja.
A Doutrina Social da Igreja, ao sublinhar a importância da subsidiariedade, recorda-nos que as decisões e a representação devem brotar o mais próximo possível das bases, fortalecendo a vida associativa e as autonomias. Um partido que predefine suas chapas com tamanha antecedência e centralização, corre o risco de sufocar a efervescência de novas ideias e novos quadros, transformando o “povo” em “massa” passiva, apenas esperando ser mobilizada por figuras já estabelecidas. A experiência, sim, é um tesouro; mas a renovação é a seiva que impede a árvore de secar. A fidelidade a uma trajetória e a lealdade pessoal, embora virtudes em si, não podem ser os únicos critérios para a composição de uma chapa que almeja representar a diversidade de uma sociedade e as complexidades de um estado como o Rio de Janeiro.
É preciso, portanto, que a discussão política seja marcada pela veracidade, expondo as intenções e os efeitos concretos das estratégias. A vasta experiência de Benedita da Silva, sem dúvida, oferece um capital de conhecimento e articulação que pode ser crucial. Mas o que se espera de uma candidatura não é apenas a manutenção de um legado, e sim a capacidade de propor soluções inovadoras e adaptadas aos desafios emergentes. Como se promoverá a justiça distributiva da representação, garantindo que a cadeira senatorial seja um espelho fiel das aspirações dos mais variados segmentos da sociedade fluminense, e não apenas a extensão de uma “velha guarda”, por mais honrosa que seja?
Os partidos, em sua função essencial de mediação política, precisam constantemente abrir-se e acolher. Um processo que se antecipa demais, que verticaliza as escolhas e prioriza a lealdade de longa data em detrimento de uma busca mais ampla por talentos e ideias, pode, em vez de fortalecer, engessar o organismo partidário e, por extensão, a própria representação democrática. A busca pela ampliação de direitos e o combate às desigualdades, bandeiras levantadas pela candidata, exigem não só a voz experiente, mas também o frescor de quem traz a sensibilidade aos novos dilemas e a coragem de propor caminhos que ainda não foram trilhados.
A árvore política, para se manter frondosa, precisa que suas raízes profundas nutram não só a copa estabelecida, mas também os galhos que brotam, abrindo-se ao sol do futuro. A verdadeira vitalidade política, afinal, não é mera acumulação de anos, mas a perene capacidade de dar frutos novos, mantendo as raízes fincadas na terra que a nutre.
Fonte original: Brasil 247
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.