Vinte e quatro anos. Um quarto de século de uma vida consumida em prisões israelenses, e a figura de Marwan Barghouti emerge, uma vez mais, como o epicentro de uma batalha narrativa que transcende as grades e o tempo. Não se pode ignorar o peso de tal reclusão: um líder palestino, deputado eleito, membro de uma das principais facções, figura central na elaboração de um documento que pleiteava uma solução de dois Estados. Sua história, tal como a apresentam seus defensores, é a de um homem que, mesmo sob as mais duras privações, manteve-se um símbolo de resistência e de um anseio legítimo por um futuro diferente. Os relatos de agressões e a ausência de atendimento médico em seu isolamento são, de fato, preocupações que clamam por uma atenção séria e imparcial, pois a humanidade de todo detento, independentemente de sua culpa ou inocência, não se anula.
Contudo, a balança da justiça, em sua busca pela verdade integral, exige que se pese todos os fatos. O polemista católico não pode ser seletivo em sua análise, nem cair na armadilha de uma narrativa que, por exaltação política, elide dimensões cruciais. Marwan Barghouti não é apenas um “prisioneiro político” na acepção neutra do termo; é, para o sistema legal israelense, um criminoso condenado por múltiplos assassinatos e atos de terrorismo. Ignorar essa realidade, ou reduzi-la a uma mera “narrativa oficial israelense” desprovida de fundamento, seria desmerecer a seriedade de um processo judicial — e, mais grave, desconsiderar o sofrimento real das vítimas e de seus familiares. A justiça, ensina São Tomás de Aquino, é a virtude que atribui a cada um o que lhe é devido, e isso se aplica tanto aos direitos do detento quanto à reparação devida àqueles que sofreram a violência.
A confusão deliberada entre um líder político e alguém condenado por atos de violência é um dos maiores perigos para a reta razão e para a ordem moral pública. A liberdade, como nos recordava Leão XIII, não é licença para tudo, mas a capacidade de agir conforme o bem e a lei justa. O Estado tem o dever primário de proteger seus cidadãos e de fazer valer a lei contra aqueles que atentam contra a vida humana. Minimizar a responsabilização criminal de Barghouti em nome de um ideal político posterior ou de seu potencial unificador é subverter o princípio da justiça e abrir as portas à impunidade, criando um precedente perigoso para qualquer sociedade que se pretenda civilizada.
A verdadeira via para a paz e para uma ordem justa não pode ser construída sobre omissões convenientes ou sobre a negação de verdades incômodas. Uma paz duradoura exige reconhecimento mútuo, o que inclui a aceitação da responsabilidade por atos passados. Por mais que a figura de Barghouti possa ser um catalisador para a unidade palestina, ou por mais que círculos israelenses o vejam como interlocutor, essas considerações políticas não anulam o julgamento sobre as ações que o levaram à prisão. A busca por um futuro de coexistência e diálogo não pode silenciar a voz daqueles que clamam por justiça por atos de barbárie.
A sociedade, adverte Pio XII, não é uma massa indistinta, mas um povo composto de pessoas com direitos e deveres. E, nesse povo, os direitos das vítimas não podem ser sacrificados no altar de uma política que busca um atalho para a reconciliação. A veracidade, portanto, impõe que se olhe para a complexidade do caso Barghouti não como um mero embate entre narrativas, mas como um desafio à própria noção de justiça.
Não se trata de desqualificar a dimensão política do encarceramento, nem de ignorar o apelo à unidade palestina que ele representa. Mas o compromisso do Polemista Católico é com a inteireza da verdade e com a justiça para todos. Uma paz autêntica surgirá não de conveniências temporárias, mas do reconhecimento pleno das responsabilidades e da aplicação equitativa da lei, que resguarde a vida comum e o bem da cidade.
A paz que silencia a verdade é uma trégua frágil; a justiça que a enfrenta é o seu único alicerce.
Fonte original: GGN
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.