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Applebaum: Captura do Estado e Ameaça à República Justa

Anne Applebaum acusa o governo dos EUA de 'captura do Estado', instrumentalizando instituições para fins partidários. Analisamos como essa prática corrói a fé na lei e ameaça a integridade da República.

🟢 Análise

Quando a acusação de uma “captura do Estado” ressoa nos corredores da Casa Branca, não é apenas um eco retórico, mas uma interpelação aos alicerces da vida comum. Anne Applebaum, voz proeminente da revista *The Atlantic*, levanta um véu sobre práticas do governo americano que, segundo ela, instrumentalizam as instituições públicas para fins partidários, beirando a corrupção e minando a própria integridade da República. A narrativa é de um presidente que cria um fundo bilionário para aliados sob pretexto de perseguição política, que tolhe investigações fiscais e que, supostamente, manipula processos eleitorais e interfere até em pleitos estrangeiros, como o brasileiro e o húngaro.

Não é leve a matéria em questão. A preocupação legítima com o uso de recursos públicos para beneficiar uma facção e a interferência política em agências independentes como a Receita Federal ou o Departamento de Justiça é um problema moral real, que corrói a fé do cidadão na equidade da lei. A experiência nos ensina, e a Doutrina Social da Igreja adverte, que o Estado deve ser o promotor do bem comum, garantindo a ordem justa e a segurança jurídica para todos, não um instrumento a serviço de interesses particulares. Se a *justiça* distributiva e comutativa não se impõe à máquina estatal, a República se torna um arremedo de poder.

É neste ponto que a sabedoria de São Tomás de Aquino e o Magistério nos oferecem um discernimento essencial. O Estado, em sua reta ordenação, é uma sociedade perfeita, mas instrumental: existe para o bem temporal dos homens, para que possam viver virtuosamente. Quando um partido, pessoa ou grupo busca “capturar” o Estado e tomar o controle das instituições para servir a si mesmo, e não ao país, como acusa Applebaum, estamos diante de um desvio grave, uma forma de estatolatria já condenada por Pio XI. O governo, ao invés de guiar o *povo* (corpo orgânico, unido por propósitos morais e históricos), opera para dominar a *massa* (coleção atomizada de indivíduos), transformando o que deveria ser serviço em dominação, conforme a aguda análise de Pio XII.

Contudo, é preciso que a *veracidade* seja a bússola neste debate. Analogias históricas extremas, como as que equiparam as táticas políticas contemporâneas nos EUA ao Bolchevismo ou ao Stalinismo, por mais que queiram alertar para um perigo, correm o risco de banalizar a gravidade desses regimes totalitários e de inflamar o debate político para além do razoável. A verdadeira ameaça é diminuída quando seu nome é invocado com frequência excessiva ou fora de contexto. A retórica hiperbólica, ao invés de iluminar, pode ofuscar a distinção necessária entre a reorientação legítima de políticas públicas por um governo eleito – algo inerente à democracia – e a instrumentalização corrupta das instituições.

A tarefa do Polemista Católico não é defender um partido ou outro, mas a integridade das instituições e a ordem moral pública. É preciso *humildade* para reconhecer que acusações de abuso de poder são frequentemente bilaterais em democracias polarizadas. Ambos os lados podem se sentir “perseguidos” e tentar “reorientar” o Estado à sua imagem. O ponto de ruptura, o limiar da instrumentalização, não está na mera intenção de reformar, mas na violação da lei natural e positiva, na subversão da finalidade das instituições para o bem comum em favor do interesse particular ou partidário. O Estado, por ser uma instituição de *justiça*, não pode ter favoritos, nem dispensar seus próprios membros de seus deveres, como no caso das investigações fiscais.

A defesa da República exige, pois, não só vigilância, mas *fortaleza* moral. A Casa Branca, o Departamento de Justiça, o FBI, a Receita Federal – todas as agências devem resistir à pressão política e manter sua autonomia funcional. A garantia da *veracidade* nos processos eleitorais é um pilar da autodeterminação de um povo, um direito soberano que não admite interferências, sejam elas internas ou externas. Quando a confiança pública nessas instituições se erode, o caminho para o arbítrio e a desordem se abre, e o ideal da liberdade ordenada se perde no nevoeiro da desconfiança.

A República se mede não pela força de quem a comanda, mas pela incorruptibilidade dos seus pilares.

Fonte original: O Globo

⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.

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