A diplomacia, por vezes, assemelha-se a uma corda bamba estendida sobre um abismo histórico. Nenhuma relação internacional carrega um peso tão singular quanto a entre Alemanha e Israel, forjada na cicatriz indelével do Holocausto e sustentada por uma “razão de Estado” alemã que prometia solidariedade incondicional à segurança israelense. Contudo, essa fundação inabalável treme agora sob o peso de realidades desiguais e tensões morais, revelando que mesmo o dever mais solene exige a primazia da justiça e da verdade.
O chanceler federal alemão, Friedrich Merz, ao expressar sua profunda preocupação com a situação nos territórios palestinos e denunciar a anexação “de facto” da Cisjordânia, não fez mais do que reafirmar um princípio basilar do direito internacional. A resposta, contudo, veio em tom incendiário do ministro das Finanças israelense, Bezalel Smotrich, que, em véspera do Yom HaShoah, a data de luto mais solene para o povo judeu, distorceu a memória do genocídio para silenciar uma crítica legítima. Reduzir a posição alemã a um resquício de “alemães ditando aos judeus onde é permitido viver” não é apenas desonesto; é uma instrumentalização vil do sofrimento passado para justificar violações do presente. O próprio embaixador de Israel na Alemanha teve a dignidade de rebater o colega, acusando-o de minar a memória do Holocausto. A verdade histórica não pode ser um escudo para a injustiça nem uma arma contra a razão.
O distanciamento de Merz do termo “razão de Estado” incondicional, ocorrido em outubro de 2025, não significa um abandono da responsabilidade histórica da Alemanha, mas uma clarificação moral necessária. A Doutrina Social da Igreja, herdeira da reta razão, ensina que a segurança de uma nação, embora um bem fundamental, não pode ser alcançada à custa da dignidade de outro povo ou pela violação flagrante do direito internacional. Pio XII, ao falar do povo versus a massa, alertava para o risco de uma sociedade sucumbir a paixões e retóricas que obscurecem a ordem moral pública. A expansão de assentamentos em territórios ocupados, os ataques de colonos radicais contra civis palestinos e a rejeição explícita da solução de dois Estados pelo governo israelense são entraves claros à paz, tornando a “razão de Estado” uma justificativa vazia se desprovida de um quadro moral de justiça.
A objeção de que a Alemanha estaria a minar a estabilidade de um aliado estratégico, sem oferecer um caminho alternativo de segurança, revela a profunda dificuldade do momento. É uma preocupação legítima, pois a segurança de Israel é um bem a ser salvaguardado. No entanto, a verdadeira segurança de uma nação não reside apenas na força militar ou na expansão territorial, mas na justiça interna e na paz com seus vizinhos. A solução de dois Estados, ainda que complexa e hoje rejeitada por um governo israelense que prefere a anexação “de facto”, permanece o horizonte mais razoável para a coexistência. A Alemanha, como outras potências, tem o dever de insistir num caminho que promova a propriedade com função social e a liberdade ordenada para todos, como ensinava Leão XIII, sem esmagar as justas aspirações de um povo sob ocupação.
Em vez de uma retórica meramente performática, é preciso que a diplomacia alemã e europeia ofereça um plano concreto de incentivos e sanções, calibrado pela prudência, que reforce o respeito ao direito internacional sem deslegitimar a existência de Israel. Confrontar a intransigência e o extremismo, seja de que lado for, exige coragem e adesão inabalável aos princípios da justiça e da veracidade. Não se trata de ditar modos de vida, mas de exigir respeito a regras civilizatórias que todos os Estados, sem exceção, devem observar.
Neste tabuleiro de xadrez global, onde a história e a geopolítica se entrelaçam dolorosamente, a bússola deve ser sempre a justiça. A verdadeira solidariedade não é um cheque em branco para ações indefensáveis, mas um compromisso firme com o que é reto, bom e verdadeiro, mesmo quando isso exige o sacrifício da conveniência e o risco da discórdia. O dever de memória é um dever de justiça.
Fonte original: O Povo
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.