As sondagens da Saxônia-Anhalt anunciam a ascensão da Alternativa para a Alemanha (AfD) e acendem um debate que transcende as disputas eleitorais. Não é apenas o futuro de um governo estadual que se joga nas urnas, mas a própria fibra da comunidade política, a maneira como a Alemanha – e, por extensão, a Europa – se entende como pátria e como casa. A promessa de Ulrich Siegmund, candidato da AfD, de fazer história com o primeiro governo liderado por seu partido é ambiciosa, mas as ressonâncias de sua agenda exigem um escrutínio moral que vai além da aritmética dos votos.
O que inquieta, legitimamente, não é a alternância de poder em si, mas as premissas que fundamentam a visão de governo. Quando o Departamento Federal de Proteção da Constituição (BfV) classifica o diretório da AfD de Siegmund como “extremista de direita”, argumentando um conceito de cidadania baseado na raça que contradiz a Lei Fundamental, a preocupação não é abstrata. O plano de “remigração” apresentado por etnonacionalistas como Martin Sellner, no qual Siegmund esteve presente, e que sugere a deportação de solicitantes de asilo, estrangeiros com direito de permanência e até mesmo “cidadãos não assimilados”, é uma afronta direta à dignidade da pessoa humana. Não se pode construir uma sociedade justa definindo quem pertence e quem não pertence com base em critérios arbitrários de “assimilação” cultural ou origem.
Siegmund defende que seu governo agirá sempre dentro do “arcabouço legal” e buscará “despolitizar” e “desideologizar” os currículos. Mas aqui, a veracidade da intenção precisa ser posta à prova. A retórica de “desideologização”, não raro, serve de biombo para a imposição de uma nova ideologia, tão ou mais estreita que a anterior. Como bem percebeu Chesterton, a loucura não é a ausência de razão, mas a razão levada a um ponto de desumanidade. A ideologia que redefine a cidadania pela “raça” ou pela “assimilação” perfeita, ignorando a dignidade intrínseca de cada pessoa, é exatamente essa razão desvirtuada que perde o chão do bom senso e da caridade.
A validade de um mandato popular é inegável, mas a soberania do povo não é um cheque em branco. Ela encontra seu limite na justiça e nos princípios inalienáveis da lei natural e da Constituição. Pio XII alertava sobre a diferença crucial entre “povo” e “massa”: o povo é uma comunidade organizada, consciente de seus direitos e deveres, um corpo vivo cujos membros se reconhecem mutuamente na dignidade. A massa, ao contrário, é um aglomerado informe, facilmente manipulável e destituído de laços orgânicos de liberdade ordenada, suscetível de ser instrumentalizado por quem detém o poder. Uma política que busca categorizar e expurgar parte de seus membros, mesmo sob o pretexto de “aplicação rigorosa da lei”, corre o risco de transformar o povo em massa, onde os direitos se tornam concessões.
O Estado, em sua essência, tem o dever de proteger a todos que vivem sob sua jurisdição, zelando pela ordem moral pública e pelo bem da cidade. As preocupações legítimas do eleitorado, como a gestão da imigração ou a reforma educacional, devem ser endereçadas com soluções que respeitem os direitos fundamentais e o devido processo legal. Subverter esses pilares, mesmo que para atender a uma demanda popular momentânea, é ceder à tentação de uma engenharia social que, no fim, desfigura a própria nação.
O desafio da Saxônia-Anhalt não é apenas político; é um teste moral para a fibra da república. Uma pátria se faz não pela depuração de suas diferenças, mas pela solidez dos alicerces que garantem a todos o direito à casa e à lei. A verdadeira grandeza de uma nação se mede pela sua capacidade de construir uma comunidade em que a dignidade de cada pessoa seja o limite de todo poder e o horizonte de toda liberdade, onde nenhum cidadão seja tratado como massa a ser moldada ou expulsa, mas como parte viva e integrante do bem comum.
Fonte original: O Povo
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.
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