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Acre: O Palco Eleitoral e a Política do Bem Comum Esquecido

No Acre, a política virou palco eleitoral e jogo de bastidores, distante do serviço público. Analisamos a corrosão da confiança e a negligência de projetos concretos essenciais para o bem comum.

🟢 Análise

A política, no Acre como em muitas paragens do Brasil, parece ter trocado o canteiro de obras da vida comum pelo palco cintilante do teatro eleitoral. De cortinas sempre abertas para os arranjos de bastidor e os sussurros de aliança, os holofotes recaem sobre um elenco fixo de protagonistas, cujas falas e gestos, por vezes, parecem coreografados para as próximas eleições, e não para a edificação da cidade.

Os fatos são estes: nomes consolidados como Gladson Cameli e Jorge Viana, deputados como Edvaldo Magalhães e Nicolau Júnior, prefeitos como Alysson Bestene e Zequinha Lima, senadores como Márcio Bittar e Alan Rick. Há datas de julgamentos, reuniões de partidos, apoios a serem definidos e a dança usual de alianças que se tecem e desfazem no balé pré-eleitoral. O MDB declara não almejar cargos, apenas espaço na chapa; o PL e MDB planejam ações conjuntas; certos deputados governistas “incubados” apoiam uma figura em ascensão. A trama é rica em personagens e movimentos táticos. Mas, sob a superfície cintilante dessa dramaturgia, paira uma questão incômoda: que realidade, de fato, se está narrando?

Quando a imprensa, mesmo que seja uma coluna de opinião, se ampara em “pesquisas de bastidores não registradas” ou em “importantes fontes do governo” que não se identificam, a veracidade do discurso público é comprometida. A confiança do cidadão é corroída ao perceber que a bússola que orienta a narrativa política não é a transparência dos fatos, mas a opacidade das especulações e dos interesses velados. Não se trata de desmerecer a complexidade das articulações, mas de exigir que o pacto de veracidade que sustenta a vida comum não seja substituído por um jogo de sombras, onde as intenções são atribuídas sem prova e o futuro é profetizado sem registro.

Essa redução da política a um mero tabuleiro de xadrez de personalidades e cálculos eleitorais, onde o eleitorado é mais massa do que povo, é um reducionismo perigoso. Pio XII já advertia que a massificação da sociedade despersonaliza o homem, tornando-o objeto manipulável, em vez de sujeito ativo na construção da polis. A política verdadeira, arraigada na Doutrina Social da Igreja, não é um fim em si mesma, nem um espetáculo de ambições individuais. Ela é o serviço à justiça, à ordem social e ao bem de todos, buscando que cada cidadão, e não apenas o ‘cacique’ em evidência, possa florescer em sua dignidade.

Nesse cenário de “jogo de bastidores”, as perguntas essenciais ficam em segundo plano: Quais são os projetos substantivos para o Acre? Que políticas públicas emergirão dessas alianças tão cuidadosamente orquestradas? Qual o lastro moral e a coerência programática dos candidatos que “blefam” e “jogam” para eleger seus deputados? A contabilidade de votos não pode ser o horizonte último da ação política. É preciso restaurar a honestidade intelectual no debate público, diferenciando o boato da informação, a especulação do plano concreto, a manobra eleitoral da ação de governo.

A política não é um mero palco para exibição de força, onde o mais astuto vence, mas o fórum onde a vida comum da cidade se delibera e se constrói, dia após dia, nas coisas ordinárias e essenciais. Chesterton, com sua sagacidade, nos lembraria que o mais revolucionário é muitas vezes aquilo que persiste em ser normal, em defender a casa e o pão, em vez de se perder nas abstrações e nos cálculos vazios. A verdadeira força de uma liderança se mede não pela arte de se esquivar ou de urdir tramas complexas, mas pela capacidade de olhar para o horizonte do povo, e não para o mapa do próprio poder. É na sobriedade de tal visão que se encontra a esperança de uma governança que não se envergonhe de servir.

Fonte original: ac24horas.com – Notícias do Acre

⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.

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