A máquina de lavar, em sua promessa de modernidade e eficiência, muitas vezes esconde um emaranhado de custos ocultos e a obsolescência precoce de peças essenciais. De modo análogo, a política que se apresenta como um mero ajuste técnico do aparelho estatal, prometendo “choques” rápidos e “consertos” cirúrgicos, corre o risco de desconsiderar o tecido vivo da sociedade e as complexas dinâmicas que a sustentam. Romeu Zema, pré-candidato à Presidência, personifica essa visão, oferecendo seu histórico de gestor em Minas Gerais como prova de que um “não-político” pode reverter um “déficit bilionário em superávit” e implantar uma nova ordem de “choque moral e ético, choque contra a gastança e choque na segurança pública”.
Não se pode negar a aspiração legítima por um Estado mais eficiente e menos oneroso, ou a indignação ante a corrupção e a criminalidade. A experiência mineira de cortes de cargos e reversão fiscal aponta para a necessidade real de boa gestão. Contudo, a Doutrina Social da Igreja, alicerçada nos ensinamentos de Pio XI sobre a subsidiariedade e a justiça social, nos adverte contra o risco de confundir a nação com uma empresa e o povo com uma massa amorfa a ser modelada. O Estado não é apenas um balanço contábil; é a casa comum onde a vida das famílias e dos corpos intermediários – das escolas aos sindicatos – deve florescer. A busca por “1% de eficiência anual por 50 anos”, embora bem-intencionada, não pode eclipsar a função primária do Estado de garantir o bem comum e a proteção dos mais vulneráveis, sob pena de corroer a capacidade de prestar serviços essenciais e precarizar o trabalho público.
A proposta de “elevar o custo do crime” e reduzir a maioridade penal para 14 ou 16 anos, inspirada em El Salvador, é um exemplo notório de como uma solução apressada pode gerar problemas ainda maiores. São Tomás de Aquino nos ensina a distinguir as causas e a ordenar os bens; a mera punição, desacompanhada de políticas de ressocialização, de combate às causas profundas da criminalidade e do respeito à dignidade humana, pode levar à superlotação carcerária e à violação de direitos sem resolver o problema. A sanidade, como nos recordava Chesterton, não é a ausência de lógica, mas a capacidade de aplicar a lógica à totalidade da realidade. A lógica de um regime de exceção pode “reduzir a criminalidade” em estatísticas, mas à custa de quebra da ordem jurídica e de abusos inaceitáveis.
Na educação, a ideia de “escolas charter”, meritocracia remunerada para professores e a contribuição de 1% do salário de ex-alunos de universidades públicas, apresentadas como saída para um suposto “pacto pela mediocridade”, levantam sérias questões de justiça distributiva. A educação, em sua essência, não é uma mercadoria ou um serviço a ser mercantilizado, mas um direito e um bem comum, cuja universalidade deve ser salvaguardada. Instituir barreiras financeiras ou desviar recursos da base para o ensino superior, como sugerido, pode aprofundar as desigualdades existentes, criando guetos de excelência para poucos em detrimento da formação integral de todos, especialmente os mais pobres.
A veemência do discurso, que rotula o PT como “defunto” e “visão retrógrada”, contrastada com a disposição de aliar-se ao PL, mesmo após críticas a “bandidos banqueiros” e “intocáveis de Brasília”, expõe uma tensão entre a pureza ética alardeada e o pragmatismo da conveniência política. A honestidade intelectual exige que as denúncias de corrupção sejam universais e não seletivas. A política, para ser virtuosa, deve buscar a verdade e a justiça acima das conveniências eleitorais, construindo pontes e não apenas trincheiras.
A urgência de “consertar o Brasil” é sentida por muitos, mas a grandeza do desafio exige mais do que a aplicação de fórmulas empresariais ou a importação de modelos autoritários. Requer a humildade de reconhecer a complexidade do real, a paciência do diálogo e a firmeza da doutrina que preza a pessoa humana e o bem comum acima de qualquer eficiência abstrata. Um país não avança como um carro com o freio de mão puxado, mas tampouco prospera ao tentar voar sem raízes na terra. Um sistema social não se ergue apenas com golpes de martelo, mas com a argamassa invisível da confiança e do diálogo, assentada sobre o terreno da justiça e da subsidiariedade.
Fonte original: ND
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.
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