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Xamã: Talento e Estrutura na Indústria Cultural Brasileira

O sucesso meteórico de Xamã questiona a verdadeira inclusão na indústria cultural. Analisamos se seu talento rompe barreiras ou expõe desigualdades estruturais de representação e acesso.

🟢 Análise

A ascensão meteórica de Xamã, do anonimato das batalhas de rima ao brilho da telinha e dos palcos pop, é celebrada como a quebra definitiva de todas as bolhas. Um testemunho de resiliência, talento e capacidade de transitar entre mundos. Mas seria seu sucesso um atestado irrefutável de portas abertas em nossa indústria cultural, ou um espelho que reflete, com mais clareza, a arquitetura persistente das grades que ainda prendem tantos outros?

A trajetória de Geizon, o Xamã, é, em si, um enredo digno de ficção. De garçom e entregador a rimador que, por meses, dormiu na rua para não desiludir a mãe, ele forjou um caminho que o levou ao Grammy Latino, a papéis de destaque em novelas e séries, e ao reconhecimento como um novo padrão de beleza. Sua habilidade em compor raps românticos, em transitar do trap para o afrobeat, e sua versatilidade como ator, premiado em Gramado, atestam uma força criativa inegável e um instinto que diretores como Bruno Bini e Heitor Dhalia descrevem com admiração. Sua herança negra e indígena, sua vivência na periferia do Rio, tudo isso se integra a uma narrativa de superação que inspira e legitima seu lugar ao sol.

Contudo, a celebração do talento individual, por mais genuína que seja, deve ser confrontada com a veracidade das estruturas em que esse talento se manifesta e é assimilado. O sucesso de Xamã é real, mas a leitura desse sucesso pode resvalar em uma generalização perigosa: a de que as barreiras sociais são facilmente transponíveis pela mera persistência. São Tomás de Aquino nos lembra que a verdade não é apenas a adequação da inteligência à coisa, mas também a manifestação da coisa em sua essência. E a essência da nossa sociedade ainda é marcada por profundas desigualdades no acesso e na representação. A indústria do entretenimento, com seu poder de curadoria e formatação, pode inadvertidamente converter a história de um “fura-bolhas” em um endosso de sua própria (limitada) capacidade de inclusão. Ela estende uma “fresta da telha”, como o próprio artista descreve, mas não necessariamente derruba o telhado inteiro.

Pio XII, em sua distinção entre “povo” e “massa”, alertava para o risco de uma cultura que, ao invés de elevar o indivíduo em sua singularidade e responsabilidade, o dilui numa massa anônima, manipulável e consumidora de espetáculos. No caso de Xamã, o risco não é o de diluição, mas o de uma assimilação estratégica. Quando um artista de origem marginalizada é constantemente escalado para papéis de “bandidos e marginais”, mesmo que complexos e humanizados, levanta-se a questão sobre se isso realmente “quebra estereótipos” ou, paradoxalmente, reforça um repertório limitado de representação para homens negros e indígenas, ainda que com uma nova roupagem estética. O “novo padrão de beleza” com traços indígenas pode ser uma valorização legítima ou, numa leitura menos ingênua, um exotismo bem-vindo que temporariamente atende a uma demanda por diversidade sem alterar o centro gravitacional das narrativas hegemônicas.

Aqui, o paradoxo chestertoniano se impõe: não é a sanidade que se adapta ao mundo, mas o mundo que precisa se ajustar à sanidade da realidade. A sanidade nos diria que, embora seja justo celebrar cada vitória individual, seria uma insensatez acreditar que tais exceções anulam a regra da exclusão. A indústria cultural, em sua busca por rentabilidade e por uma fachada de progressismo, tem uma assombrosa capacidade de absorver elementos que antes criticava, neutralizando seu potencial subversivo. O posicionamento político de Xamã, embora firme e autêntico em suas origens, corre o risco de ser estetizado e, assim, despolitizado ao ser inserido em contextos de consumo massivo e apolítico. A adaptação de seu álbum para um som “com mais grave” após ser impactado por um show de Bad Bunny, por mais que seja um processo artístico legítimo, ilustra a dança entre a expressão autêntica e as tendências de mercado.

É nesse ponto que a justiça social se faz imperativa. Não basta que as grandes mídias “descubram” um Xamã; é preciso que construam um ambiente onde a ascensão de múltiplos talentos de origens diversas seja a regra, e não a exceção celebratória. A sociedade, tal qual uma casa bem construída, deve ser edificada sobre o fundamento da dignidade de cada pessoa, e não apenas sobre as frestas que a luz de alguns privilegiados atravessa. A “ordem profissional” e a “propriedade difusa” que Pio XI defendia, aplicadas ao campo cultural, implicariam um reconhecimento e um fortalecimento dos “corpos intermediários” da cultura — as batalhas de rima, os movimentos independentes, as comunidades artísticas de base — para que a voz do povo não seja apenas um eco da massa formatada.

A trajetória de Xamã é um triunfo pessoal inegável, um farol para muitos. Mas a lente pela qual observamos seu brilho deve ser calibrada pela honestidade e pela reta justiça. O triunfo individual não é um salvo-conduto para o sistema, mas um convite urgente a questionar as estruturas que produzem poucas frestas e muitas paredes. A verdadeira glória de uma cultura reside na capacidade de fazer da dignidade e da oportunidade um bem acessível a todos, e não um privilégio para os poucos que conseguem, por rara combinação de talento e fortuna, transpassar os muros.

Fonte original: Folha de S.Paulo

⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.

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