O anúncio de um “Dia D” de vacinação contra a Influenza em Cuiabá, com 72 unidades de saúde mobilizadas e um objetivo louvável de proteger a população mais vulnerável, é, em princípio, uma ação digna do louvor cívico. A vacina é um instrumento crucial da saúde pública, um ato de caridade social que freia a disseminação de doenças e preserva vidas. A intenção de priorizar crianças, gestantes, idosos e outros grupos de risco, conforme diretrizes do Ministério da Saúde, reflete um discernimento correto da ordem dos bens, colocando a proteção dos mais frágeis no topo da lista. O Estado, por meio de seus organismos de saúde, tem o dever de promover o bem-estar dos cidadãos, e a imunização é parte essencial dessa responsabilidade.
Contudo, a execução dessa nobre intenção corre o risco de tropeçar nos próprios pés, enredada numa teia burocrática que, paradoxalmente, pode afastar aqueles que mais precisam. A diversidade e a complexidade dos requisitos de comprovação para cada um dos múltiplos grupos prioritários — certidão de nascimento do bebê para puérperas, crachá para trabalhadores da saúde, autodeclaração para pessoas com deficiência, documentos funcionais para forças de segurança — criam um labirinto de papel que desvia o foco do bem maior: a imunização. A ausência de um protocolo claro para a comprovação de doenças crônicas, por exemplo, gera incerteza e abre espaço para exclusões arbitrárias.
A Doutrina Social da Igreja, particularmente nas encíclicas de Pio XI sobre a justiça social e de Pio XII sobre a dignidade da pessoa humana e a crítica à massificação, nos alerta para os perigos de um Estado que, em sua ânsia de controlar e padronizar, acaba por esmagar a iniciativa e a dignidade individual. A subsidiariedade exige que as instâncias superiores apoiem as inferiores sem as absorver; aqui, isso se traduz na necessidade de que a administração pública facilite o acesso, em vez de complicá-lo. Quando a burocracia se torna um fim em si mesma, a serviço de uma “focalização precisa” que ignora a realidade concreta dos cidadãos, ela se transforma em um obstáculo, não em uma ponte.
Indivíduos de grupos prioritários, como trabalhadores informais ou puérperas sem documentos imediatamente disponíveis, ou ainda aqueles com doenças crônicas sem laudos recentes, enfrentam barreiras que extrapolam a mera “participação essencial” da população. A imposição de um ônus tão pesado de comprovação, sem mecanismos de flexibilização ágeis e empáticos, pode inibir a adesão, gerar longas filas e frustração, sobrecarregar as equipes de saúde e, em última instância, comprometer a cobertura vacinal. O que deveria ser um Dia D de acolhimento e proteção pode se converter em um evento de exclusão para quem, por sua condição social ou de saúde, já enfrenta desafios desproporcionais.
A sabedoria católica nos ensina que a justiça social não se exprime apenas em grandes políticas, mas também na atenção misericordiosa e eficaz ao próximo, especialmente ao mais vulnerável. A caridade bem ordenada exige que, ao priorizar, não se crie um sistema que penalize os que não se encaixam perfeitamente nos moldes burocráticos. É preciso perguntar: qual o ponto de equilíbrio entre a necessidade de organizar e a urgência de imunizar? Onde está a magnanimidade que permite a flexibilidade razoável para que nenhum irmão em necessidade seja deixado para trás pela frieza do procedimento?
A Prefeitura de Cuiabá e a Secretaria Municipal de Saúde têm diante de si o desafio de reordenar os meios para que sirvam efetivamente ao fim. Isso implica um treinamento robusto das equipes para lidar com a diversidade de situações com empatia e discernimento, um protocolo claro e acessível para a comprovação de doenças crônicas e, talvez, a revisão de exigências que, na prática, se mostram impraticáveis para parcelas significativas dos grupos prioritários. O bem da cidade não é servido pela rigidez que exclui, mas pela inteligência prática que adapta a norma à realidade da pessoa. A saúde de um povo, afinal, se constrói não com labirintos de papel, mas com pontes de acesso e a firmeza da caridade.
Fonte original: Diario de Cuiabá
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.