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TV Brasil: Cinema Autoral e o Desafio do Acesso Público

A TV Brasil exibe cinema nacional, mas curadoria e horários limitam o acesso público. Analisamos se o serviço cultural do Estado cumpre seu dever de alcançar a todos, pela justiça distributiva.

🟢 Análise

A janela da TV Brasil, que nesta semana se abre para um panorama de filmes de valor inegável, expõe uma tensão crucial sobre o verdadeiro sentido do serviço público cultural. De dramas envolventes do sertão nordestino a documentários que resgatam o protagonismo negro e a vida operária, o mosaico proposto celebra uma rica tapeçaria de nossa identidade. Há, sem dúvida, um mérito em oferecer espaço ao cinema nacional autoral e social, que raramente encontraria guarida nas grades comerciais, garantindo a essas obras uma plataforma digna e vital.

Contudo, a intenção louvável colide com a crueza dos fatos: a curadoria, ao pender majoritariamente para o drama e o documentário de viés autoral, somada a horários de exibição que se estendem pela madrugada, transforma o que deveria ser um banquete cultural aberto a todos em um repasto reservado a poucos iniciados. Um veículo de comunicação financiado pelo erário público não pode se dar ao luxo de contentar apenas um nicho, por mais legítimo que ele seja, quando seu mandato é servir ao povo em sua totalidade.

São Tomás de Aquino, ao distinguir entre os diversos bens, ensina-nos que a arte e a cultura são bens elevados, capazes de refinar a alma e aprimorar a razão. Mas a reta ordenação desses bens, quando promovidos por instituições públicas, exige a virtude da justiça. E a justiça, neste contexto, não se perfaz apenas pela qualidade intrínseca do conteúdo, mas pela sua distribuição equitativa e eficaz. O que vale um tesouro se ele for mantido em um cofre inacessível à maioria daqueles a quem se destina?

Pio XII, em sua crítica à massificação, advertia contra a transformação do povo em mera massa amorfa, passível de manipulação ou de segmentação para consumo. Mas a mesma distinção pode ser aplicada à comunicação pública: um canal do Estado deve erguer-se para o povo – uma comunidade orgânica, ativa e participante –, não para uma massa de espectadores passivos, mesmo que seja uma massa de “cultos” ou “engajados”. A comunicação responsável, para ser plena, precisa do alcance, do engajamento amplo e da clareza sobre seu impacto real.

A preocupação de que o retorno do investimento público seja diluído por audiências minguadas não é um mero capricho de métricas, mas um ponto de veracidade na gestão. É preciso questionar, com honestidade, se os horários da madrugada e a linguagem demasiadamente hermética para o público em geral não são, no fundo, uma forma de subutilizar um recurso que deveria ser um vetor potente de formação cultural e educação cívica. O patrimônio cultural só se reabilita de fato quando suas portas se abrem para a praça pública, e não apenas para um cenáculo.

A TV Brasil tem o desafio e a oportunidade de ir além da mera exibição linear e criar pontes, com ações complementares de marketing, debates e disponibilização em plataformas digitais mais acessíveis. O pluralismo cultural que se busca promover não pode se limitar à variedade de temas e estéticas de uma curadoria específica, mas deve estender-se ao modo como esses bens chegam ao cidadão. É preciso, portanto, que a programação da TV pública demonstre uma ambição maior de alcance, buscando inspirar e formar o maior número de brasileiros, não apenas os já convertidos.

A cultura, quando verdadeiramente posta a serviço do destino comum, não é um luxo para poucos, mas um alimento essencial para a alma da nação. Um veículo público, ao promover as artes, assume a responsabilidade de ser um arauto, não um guardião zeloso demais.

O verdadeiro serviço público, enfim, exige que a arte encontre o público, e não que o público precise peregrinar à caça da arte na calada da noite.

Fonte original: Institucional

⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.

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