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SUS: Desafios, Abstrações e a Reconstrução Pela Doutrina Social

Crise no SUS: 40 anos de orçamento minguado e pressão privada. Soluções ideológicas abstratas não bastam. A Doutrina Social da Igreja aponta para uma reconstrução concreta, enraizada na força comunitária.

🟢 Análise

A celebração dos quarenta anos da 8ª Conferência Nacional de Saúde, com seu seminário de retrospectiva e prospectiva, deveria ser um momento de júbilo e renovação para o Sistema Único de Saúde, o maior sistema público universal do mundo. Mas o que se ouve, nas análises mais lúcidas, não é um cântico de vitória, e sim um lamento que confunde a festa com um velório mal disfarçado. A sanitarista Sonia Fleury, em sua provocação certeira, desvela um cenário de fragilidade assustadora, onde o SUS, em vez de motor de progresso, se vê refém de um “projeto híbrido” e de uma “reconstrução capenga”.

Não há como negar a gravidade dos sintomas: o orçamento público minguado, a influência crescente e desvirtuadora de interesses privados na saúde, a dificuldade crônica de coordenar políticas em uma sociedade marcada pela informalidade e desigualdade. É legítima a preocupação com o desequilíbrio entre os poderes, com um Legislativo que captura o orçamento e um Judiciário hiperpolitizado. É real a crise de horizontes para os jovens, que veem na educação precária uma porta fechada e na economia informal uma condenação. Tudo isso é matéria-prima para uma autêntica justiça social, que não se contenta com a mera distribuição de benesses, mas exige a reta ordenação das estruturas e dos bens.

Contudo, a busca por uma solução, quando se descola da realidade concreta, pode se tornar ela própria parte do problema. A ânsia por um “novo sujeito político” e um “projeto transformador” de cunho “anticapitalista” e “antineoliberal”, embora nascida de um anseio por ordem e sentido, arrisca-se na armadilha da abstração ideológica. Não é raro que, na busca por uma unidade perfeita e um plano imaculado, se caia no erro de menosprezar os avanços incrementais e a complexidade inerente a uma sociedade plural. É a tentação da engenharia social total, que desdenha do povo real em nome de uma “massa” a ser moldada por uma elite esclarecida, um risco já denunciado por Pio XII e combatido pela sanidade que Chesterton via no bom senso do homem comum.

A Doutrina Social da Igreja, ao contrário, nos ensina que a edificação da ordem justa não se faz com projetos vindos de um Olimpo ideológico, mas a partir do solo fértil da vida social. Leão XIII nos recordou que a família é anterior ao Estado e que as associações livres são o tecido vital de uma nação. Pio XI, com o princípio da subsidiariedade, mostrou que a solução dos problemas deve nascer o mais próximo possível das pessoas, valorizando os corpos intermediários e as comunidades. Um “novo sujeito político” não pode ser um ente etéreo, mas o próprio povo, organizado e atuante em suas comunidades, em suas escolas, em suas associações, nos seus bairros.

Nesse sentido, a adesão “incrível” de usuários e profissionais ao SUS, especialmente nas favelas e periferias, e a experiência dos agentes comunitários de saúde que os ingleses vêm estudar, são mais do que um dado animador; são o sinal de um capital social vivo e de um verdadeiro “sujeito político” que já existe. É na vitalidade dessas redes orgânicas, na capacidade de cooperar e no conhecimento profundo do território que reside a real força para a “reconstrução”. O erro não é no reconhecimento do problema, mas na crença de que a solução virá de uma ruptura radical, em vez de uma restauração paciente e concreta dos alicerces.

A verdadeira tarefa é, portanto, de humildade intelectual e justiça prática. Humildade para reconhecer que o sistema, apesar de suas falhas, ainda é um bem a ser defendido e reformado a partir de dentro, valorizando o que funciona e os que o fazem funcionar. Justiça para realocar os recursos, frear a voracidade privada, sanar as disfunções entre os poderes e investir na educação e na qualificação profissional, dando aos jovens da favela não apenas assistencialismo, mas a dignidade de um futuro com trabalho e sentido. Não é a utopia de um “projeto puro” que nos salvará, mas a teimosia de uma esperança encarnada na realidade.

A união, para ser genuína e capaz de governar, exige mais que a adesão contra um inimigo; exige um projeto que, embora sólido em princípios de justiça e caridade, seja maleável o suficiente para abraçar a complexidade, a fragmentação e a riqueza da sociedade brasileira. Não se trata de defender um status quo fossilizado, mas de construir o amanhã sobre o chão que temos, com as pessoas que somos, buscando a ordem justa que, ao fim, é a paz.

Fonte original: racismoambiental.net.br

⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.

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