A simples tarefa de sacar o celular na rua, ou a inquietude que acompanha a espera no ponto de ônibus, tornaram-se o termômetro mais fiel da segurança pública no Brasil. Não são estatísticas frias, mas a pulsação do medo cotidiano, que o Datafolha capta ao apontar a segurança como a principal área de insatisfação popular com o governo. A perplexidade não é que a nação exija um ambiente mais seguro; é a dissonância entre a resposta oficial e a angústia vivida por milhões, que se agrava quando o debate vira palco para o jogo político.
O Planalto, em sua defesa, aponta para o combate aos “crimes do andar de cima” e para a profusão de “marcos legais” enviados ao Congresso. Alega-se que mais de cinquenta projetos de segurança já foram aprovados na Câmara, e que a PEC da Segurança Pública, esta sim, consolidaria uma cooperação necessária entre esferas. Há, sem dúvida, uma dimensão de justiça em enfrentar a corrupção e os desvios que corroem a base moral da na nação. Mas, como observaria Chesterton, a sanidade política começa na atenção ao visível, ao próximo. A obsessão por construir catedrais de leis e por caçar dragões distantes não pode cegar-nos para os lobos que rondam a porta da casa, onde a família busca sua liberdade ordenada e a simples proteção de sua propriedade e de sua vida. A prioridade fundamental da autoridade política, conforme a Doutrina Social da Igreja, é salvaguardar a ordem social e a incolumidade dos cidadãos, não a conveniência de uma narrativa que transfere responsabilidades.
É nesse ponto que a veracidade do discurso público se esvai. O vice-líder do governo aponta o dedo para governadores que agem de “maneira esperta e sorrateira”, esquivando-se da culpa pelos assaltos de rua. A oposição, por sua vez, acusa o governo de um “grande fracasso” e de só se importar com o tema no “último ano de mandato”. No meio dessa esgrima retórica, a PEC da Segurança jaz travada no Senado há mais de dois meses, refém de conflitos institucionais – como o que envolve o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, e uma indicação ao Supremo Tribunal Federal. Tal paralisia, um verdadeiro entrave ao que se professa ser “prioridade do Brasil”, demonstra uma desconexão preocupante entre a retórica da urgência e a inação política, onde a busca do poder eclipsa o dever de servir.
A questão central, portanto, não é se combater os crimes de colarinho branco é justo – certamente o é. A pergunta é: como isso se traduz em menos medo para quem anda com o celular na capital paulista ou espera o transporte público em qualquer cidade brasileira? A mera aprovação de leis, por si só, não edifica a segurança. É preciso que a letra fria se converta em ação coordenada, em recursos efetivos e em responsabilidade compartilhada, não diluída na névoa da disputa federativa. O princípio de subsidiariedade, que orienta a cooperação entre os níveis de governo, não é uma desculpa para o repasse da culpa, mas um chamado à ação conjunta, em que cada esfera age segundo suas capacidades e sua proximidade com o cidadão, sem que o todo esmague a parte nem a parte se exima da colaboração com o todo.
O povo, ao contrário da massa anônima que as ideologias muitas vezes concebem, tem um rosto concreto, um nome, uma família e uma rotina que exige ser protegida. Pio XII alertava sobre a dissolução do povo em massa, manipulável e desprovida de sua dignidade ativa. A segurança é um bem tangível, um direito fundamental que permite ao indivíduo exercer sua liberdade e participar da vida comum. A justiça, aqui, não se limita a punir o criminoso, mas a prevenir o crime, a garantir a ordem pública e a dar ao cidadão a certeza de que a autoridade constituída, seja federal, estadual ou municipal, está a seu serviço, empenhada em proteger a vida e o patrimônio, e não em vencer a próxima eleição ou a próxima disputa institucional.
É preciso que a classe política reencontre a honestidade intelectual e a coragem para enfrentar a realidade sem desviar o olhar. A verdadeira segurança não nascerá de estratégias eleitorais ou de uma retórica de acusação mútua. Ela virá da ação coordenada, da priorização do concreto sobre o abstrato, e da disposição de todos os entes da federação de fazer a sua parte, com responsabilidade e transparência, para que o cidadão possa, afinal, caminhar em paz.
Fonte original: Folha de S.Paulo
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.