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Saúde e Violência: Falha no Combate à Reincidência Feminina

O sistema de saúde no Brasil registra milhões de casos de violência contra mulheres, mas a reincidência atinge 53%. A coluna analisa as fissuras na proteção e a urgência de soluções sociais e morais.

🟢 Análise

Um leito de hospital. Sangue seco no lábio. Um olhar perdido no teto. Essa cena, que se repete 900 vezes a cada dia nas unidades de saúde do Brasil, é o rastro visível de uma chaga invisível que corrói o tecido social: a violência contra meninas e mulheres. Os números, por si, já são um grito. Em 2025, trezentos e trinta mil registros de atendimentos por violência. Entre 2015 e 2025, 2,3 milhões de casos, com 71% das vítimas sendo mulheres. O sistema de saúde, reconhecido há 25 anos como porta de entrada essencial para esses dramas, cumpre sua parte ao notificar e acionar uma cadeia de proteção que alcança até mesmo violências que raramente chegam às delegacias, como as psicológicas, morais e patrimoniais. Trata-se de um esforço meritório para barrar a escalada que, não raras vezes, culmina no feminicídio.

Contudo, a gravidade do problema e a aparente eficácia do sistema de captação de dados não devem nos cegar para as fissuras na estrutura de proteção. Se, de um lado, a saúde é um porto seguro para quem sofre o ataque, de outro, os dados revelam uma dolorosa reincidência: 53% das mulheres que procuram atendimento médico por violência já haviam sido atendidas antes pelo mesmo motivo. Este número, que exclui a subnotificação, não é apenas uma estatística; é a face mais pungente de uma falha em interromper o ciclo da violência. A ‘cadeia de proteção’ acionada pela notificação, portanto, parece mais um prontuário que se alarga do que uma cerca que se ergue para afastar o agressor de forma definitiva.

A verdade é que o sistema, por mais bem-intencionado, enfrenta gargalos estruturais alarmantes. O dado de que apenas cerca de 40 hospitais públicos no Brasil estão cadastrados para atender vítimas de violência sexual com protocolo completo é um atestado da precariedade de uma rede que deveria ser capilar e robusta. Apenas 34% das mulheres vítimas de violência, segundo pesquisas, chegam a buscar assistência à saúde. Isso significa que, para a vasta maioria, a “grande porta de entrada” permanece fechada ou invisível. Não basta que o sistema seja capaz de identificar o mal; é preciso que ele tenha os meios de extirpá-lo, ou ao menos de isolá-lo da vida da vítima.

A interpretação desses números exige de nós a virtude da veracidade. Não podemos confundir uma melhora na captação de dados com um avanço substancial na erradicação da violência. A superestimação do papel do setor de saúde como único bastião pode desviar recursos e energias de intervenções mais amplas e preventivas, que ataquem as raízes culturais e estruturais da violência. Como Pio XII nos advertiu sobre o perigo de reduzir o povo a uma massa despersonalizada, também não podemos reduzir o drama da mulher violentada a um mero item de notificação em um prontuário. A violência por parceiro íntimo é o terceiro maior fator de risco para morte prematura e invalidez de mulheres no Brasil, o que exige mais do que a simples documentação do ferimento.

A justiça demanda que se olhe para a família, a sociedade primeira, como o principal locus de formação e proteção. Leão XIII já afirmava que a família precede o Estado, e é ali que a ordem da vida e os direitos naturais devem ser primeiramente resguardados. Quando o lar se torna palco de agressão, a sociedade como um todo falha em seu dever mais elementar. A solução não pode ser meramente um semáforo doutrinal ou um contrato de desempenho para unidades de saúde, mas uma verdadeira reconstrução moral-cultural que envolva a transparência curricular nas escolas, conselhos atuantes de escola-família-comunidade e institutos de virtude que forjem o caráter e a honradez desde cedo.

É preciso, com a fortaleza de quem não se ilude com meias-verdades, reconhecer que a violência contra a mulher não é apenas um problema de saúde pública a ser gerenciado, mas uma grave desordem moral e social que exige um compromisso integral da comunidade. A “cadeia de proteção” não se completa apenas com a notificação; ela se edifica com a educação para o respeito, a exigência de responsabilização dos agressores e o apoio integral para que a vítima possa reconstruir sua vida sem medo da reincidência. O desafio é mudar o curso de um rio de sofrimento, não apenas medir sua correnteza.

A verdadeira resposta está em edificar uma cultura onde a dignidade da pessoa humana seja o alicerce inabalável, e onde o agressor, antes de tudo, seja confrontado em sua própria desumanidade. Não se trata de uma tarefa para um único setor, mas para uma sociedade inteira que se recusa a aceitar que a violência seja parte do ordinário. A paz social não floresce onde a justiça é um luxo, mas onde a casa de cada um é um santuário de segurança e respeito.

Fonte original: Folha de S.Paulo

⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.

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