Quando um único corpo padece, a dor se irradia. Os especialistas de hoje, com a melhor das intenções e o rigor da ciência, observam essa verdade biológica e propõem um caminho: o tratamento integrado. Uma orquestra de saberes a serviço da saúde, prometendo longevidade e bem-estar. Estudos recentes, como a revisão sistemática publicada na BMC Health Services Research, confirmam que o acompanhamento multidisciplinar pode, de fato, aumentar a satisfação do paciente, aprimorar a percepção da qualidade do atendimento e, em quadros específicos de doenças crônicas, melhorar a qualidade de vida. Há um ponto de verdade inegável nesta busca por uma medicina que veja o homem em sua totalidade, e não apenas como um aglomerado de órgãos a serem fatiados por especialidades.
Contudo, é preciso aplicar a lupa da justiça sobre essa “evolução”. A Doutrina Social da Igreja, desde Pio XI, insiste que o progresso técnico e social deve servir ao homem em sua integralidade, e não apenas a uma parcela privilegiada. Quando se fala de “tratamento integrado” em clínicas privadas de alto padrão, que juntam cardiologia, ortopedia, geriatria e, notavelmente, dermatologia estética sob o mesmo teto, a promessa de “longevidade” e “bem-estar” adquire um sabor elitista. Os dados do Estudo Longitudinal da Saúde dos Idosos (ELSI-Brasil) revelam que quase 37% dos brasileiros com mais de 50 anos vivem com dores crônicas. O Ministério da Saúde e a OMS chamam a atenção para o envelhecimento populacional e a necessidade de um envelhecimento saudável. A questão, portanto, não é se esse modelo pode funcionar, mas se ele pode ser justo para o povo em sua vasta e dolorosa realidade.
A verdadeira evolução na medicina não pode criar uma saúde de duas velocidades. É uma falácia lógica da modernidade pretender resolver problemas universais com soluções particularistas. Um modelo que amplia o acesso e a satisfação de pacientes em contextos de abundância pode, ao mesmo tempo, aprofundar o fosso para aqueles que dependem de sistemas públicos de saúde fragmentados e subfinanciados. Não basta alardear a excelência do cuidado coordenado se a porta de entrada para esse cuidado exige uma carteira gorda. O princípio da subsidiariedade, tão caro à Doutrina Social, nos lembra que a solução deve nascer o mais próximo possível do problema, e ser fortalecida onde o acesso é mais difícil, e não apenas onde o lucro é mais fácil.
A veracidade também exige que as promessas sejam temperadas pela realidade. O uso de termos como “pode”, “indicou tendência” e “sugere” nos estudos citados é um sinal de cautela que se perde no ímpeto promocional. Extrapolar a melhoria da qualidade de vida para uma promessa de “longevidade” indefinida, especialmente ao incluir especialidades como a estética, é distorcer o foco. O homem moderno, ansioso por eternizar a juventude e postergar o fim, facilmente se ilude com a ideia de que a ciência pode vencer a morte, quando na verdade, ela apenas pode, e com muitas limitações, minorar o sofrimento e estender a vida em condições razoáveis. A saúde é um dom e um bem a ser cultivado com responsabilidade, não um luxo a ser comprado para adiar o inexorável.
Chesterton, em seu paradoxo sobre o progresso, talvez dissesse que os modernos, para avançar, acabam por tropeçar nos próprios pés ao deixar para trás o senso comum da equidade. Criam novas formas de cuidado, mas esquecem que a caridade e a justiça deveriam ser as bússolas de qualquer verdadeira inovação. Um tratamento integral que ignora a realidade social de um país como o Brasil, onde milhões sequer têm acesso ao básico, é uma casa suntuosa sem fundação.
A integralidade, para ser cristã, não pode ser exclusiva. Deve-se louvar a busca por um cuidado que veja o paciente como pessoa, e não como patologia isolada. Mas a promoção de tal modelo como a “adiante na medicina” deve vir acompanhada da demonstração de sua viabilidade para todos, de sua custo-efetividade nos sistemas públicos e da priorização dos bens essenciais sobre os supérfluos. Do contrário, teremos apenas mais uma forma sofisticada de segregar, onde a saúde plena se torna um privilégio, e não um direito. A verdadeira medicina avança quando eleva a todos, e não apenas a poucos, ao patamar da dignidade plena.
Fonte original: Terra
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.