A medicina moderna, em sua incessante busca por desvendar os mistérios do corpo, acaba de lançar nova luz sobre uma verdade antiga: a intrínseca conexão entre a saúde cardiovascular e o desfecho oncológico. O recente estudo publicado no European Heart Journal, com dados do Moli-sani e o referencial do índice Life’s Simple 7 da Associação Americana do Coração, oferece uma robusta confirmação: hábitos saudáveis, como não fumar, praticar atividade física, alimentar-se bem e controlar parâmetros vitais, reduzem significativamente o risco de morte, mesmo para aqueles que já enfrentaram o câncer. Há, sim, um “terreno biológico compartilhado”, uma trama de mecanismos como a inflamação crônica, onde doenças tão distintas convergem. A diligência pessoal, a temperança no comer e no beber, a laboriosidade no exercício, não são meras prescrições médicas; são virtudes que edificam a fortaleza do corpo e, por consequência, prolongam a vida.
Contudo, é nesse ponto que a clareza factual pode esbarrar na tentação do reducionismo e da falsa simplicidade. Pois, ao proclamar que “ter hábitos saudáveis significa que, mesmo que o paciente desenvolva câncer, ele tem mais chance de estar vivo depois”, como afirma o oncologista Stephen Stefani, corremos o risco de lançar sobre o indivíduo um fardo moral excessivo, convertendo a doença em veredito de uma suposta falha pessoal. A agência individual é real e valiosa, mas a capacidade de exercer a temperança e a laboriosidade na vida diária não é um dado universalmente disponível, mas um privilégio modulado por complexas coordenadas de justiça social.
A Doutrina Social da Igreja, desde Leão XIII e Pio XI, nos ensina que a liberdade ordenada do indivíduo não se dá no vácuo, mas em uma sociedade que deve proporcionar as condições materiais e espirituais para que ele possa buscar seu aperfeiçoamento e o bem comum. A ideia de que basta querer para ter uma alimentação saudável ou acesso a ambientes seguros para a atividade física ignora a realidade de milhões. Salário justo, propriedade difusa, acesso a uma educação que transmita a virtude e o conhecimento, e a presença de corpos intermediários vibrantes (família, associações, comunidades) são elementos essenciais para que o cidadão possa, de fato, fazer escolhas salutares. Não é o acaso, mas a injustiça estrutural, que muitas vezes priva vastas parcelas da população do acesso a alimentos nutritivos, espaços para exercícios e informação de qualidade.
Quando o foco se restringe aos “7 pilares” como se fossem igualmente acessíveis a todos, sem considerar as desigualdades socioeconômicas profundas, a ciência, ainda que não intencionalmente, pode inadvertidamente legitimar um discurso que culpabiliza as vítimas e desvia a atenção da responsabilidade coletiva. A saúde pública não se resume à soma de escolhas individuais; ela é um reflexo da ordem social e da primazia da justiça. Uma comunidade que verdadeiramente se importa com a saúde de seus membros não se limita a lhes oferecer recomendações; ela investe em políticas que assegurem o direito à saúde desde a raiz: saneamento básico, habitação digna, regulamentação da indústria alimentícia e ambiental, e um sistema de saúde acessível e de qualidade.
A verdade, portanto, reside na integração e não na dicotomia. A correlação entre hábitos e saúde é um apelo à responsabilidade pessoal pela temperança e pela laboriosidade. Mas é, igualmente, um chamado à justiça social, que exige que a sociedade crie as condições para que essas virtudes possam florescer em todos os solos, e não apenas nos mais férteis. Não se trata de negar a ciência nem de absolver o indivíduo de sua parte, mas de reconhecer que o “terreno biológico compartilhado” tem seu correlato no “terreno social compartilhado”. A dignidade da pessoa humana impõe que a busca pela saúde seja um percurso possibilitado a todos, e não um privilégio de poucos.
A verdadeira saúde, individual e coletiva, não se constrói apenas pela disciplina do corpo, mas pela justiça de um terreno onde o florescer humano seja uma realidade para cada um.
Fonte original: globo.com
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.