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Ricardo Salles: Imoralidade, Pragmatismo e o 8 de Janeiro

Ricardo Salles critica políticos, mas sua trajetória revela inconsistências. Analisamos sua conduta, o 8 de Janeiro e sua retórica ambiental e trabalhista à luz da ética pública.

🟢 Análise

No palco ruidoso da política brasileira, onde a ambição muitas vezes veste o manto da virtude, vemos em Ricardo Salles um espelho incômodo. Ele, que foi parte da cengalha bolsonarista e agora a denuncia, ergue a voz para criticar a proximidade de Flávio Bolsonaro com um banqueiro investigado, Daniel Vorcaro. “É no mínimo imoral”, sentencia. E de fato, a familiaridade de figuras públicas com aqueles sob o escrutínio da justiça, especialmente após a prisão do implicado, não é apenas um deslize protocolar; é uma afronta à honestidade que se exige de quem detém o poder público. A República, para se sustentar, não pode tolerar a sombra da promiscuidade entre o cargo e o interesse privado, pois a confiança do povo é um bem frágil e precioso, que não se reconquista com meras palavras.

Mas o juízo, para ser justo, deve ser universal. Salles, ao criticar o “pragmatismo” do PL e a “velha política” que o preteriu em São Paulo, revela mais do que as rachaduras na armadura alheia; expõe a própria. Sua saída do PL para o Novo, suas articulações, suas acusações sobre os supostos R$ 60 milhões envolvidos na negociação de candidaturas – tudo isso pinta um quadro onde a ideologia, para muitos, é a capa que disfarça a conveniência eleitoral. Não se pode pedir justiça e integridade aos outros se a própria trajetória é marcada por ziguezagues que parecem seguir o vento das pesquisas ou as promessas de um bom acordo. A verdade que se exige do adversário deve ser a mesma que se exige de si, sem seletividade.

Quando Salles minimiza o 8 de Janeiro a uma “baderna” e propõe anistia total, o que se manifesta não é a reta misericórdia, mas uma perigosa distorção da verdade. Houve, sim, “discussões sobre questões de constitucionalidade” e a “conveniência e oportunidade de deixar o PT e o Lula voltarem ao poder”, como ele próprio admite. Reduzir a invasão e depredação das sedes dos Três Poderes a um mero arroubo, negando a intenção de subverter a ordem democrática, é fechar os olhos para a gravidade do que estava em jogo. A justiça não se serve de narrativas convenientes, mas da correta distinção entre o erro e o crime, entre o protesto legítimo e a tentativa de golpe. O perdão, quando devido, não pode ser um salvo-conduto para a irresponsabilidade cívica.

Na questão ambiental, Salles acerta ao apontar o saneamento básico como um problema crítico do país, ecoando a Doutrina Social da Igreja sobre o bem da comunidade e a dignidade humana. É, de fato, um escândalo que milhões de brasileiros vivam sem acesso a esgoto tratado. Contudo, seu malabarismo retórico para isentar o governo do qual fez parte das maiores taxas de desmatamento recentes, transferindo a culpa para gestões passadas, carece de laboriosidade e veracidade históricas. A gestão pública exige a assunção de responsabilidades pelos resultados alcançados, ou não, no período de sua atuação, sem revisionismos convenientes. Da mesma forma, sua resistência ao fim da escala 6×1, sob a alegação de “liberdade de negociação” e de que “o empregado impõe as condições”, desconsidera a assimetria de poder inerente à relação capital-trabalho, uma realidade que a Doutrina Social da Igreja sempre reconheceu. O salário familiar e a organização dos corpos intermediários não nasceram de uma visão idílica do mercado, mas da necessidade de equilibrar as forças em jogo, buscando uma ordem profissional que salvaguarde a dignidade da pessoa humana do trabalhador.

A vida pública, em suma, não pode ser um teatro de fachadas, onde a integridade é declamada enquanto se transige nos bastidores. A crítica à hipocrisia alheia perde sua força e sua legitimidade quando o próprio crítico se enreda na teia dos mesmos expedientes que denuncia. O bem comum não se constrói sobre as ruínas da verdade, mas exige que a honestidade seja a primeira virtude dos estadistas, e a justiça a sua ação mais constante.

A verdade, por mais dura que seja, é o único alicerce que resiste ao tempo.

Fonte original: Correio Braziliense

⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.

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