A cena, muitas vezes repetida na história e sempre sedutora para corações impacientes, é a do profeta que, farto da lentidão ou da corrupção das instituições, brada que o único caminho é a revolução na rua. O presidente nacional do Partido da Causa Operária, Rui Pimenta, repete o roteiro ao cravar que “ninguém vai mudar o Brasil por meio das instituições atuais”, desqualificando qualquer avanço legislativo como fruto de um “Congresso reacionário” e elevando a “mobilização popular nas ruas” a um tipo de golpe de Estado democrático, a única forma legítima de agir, a despeito de paralisações econômicas e bloqueios de estradas.
Não se pode ignorar a persistência de desafios legítimos à integridade democrática, a tentação da instrumentalização judicial para fins políticos ou a incapacidade, por vezes manifesta, das instituições de responderem às demandas populares urgentes. É uma dor real, uma legítima frustração ver a estagnação social e econômica persistir, e a verdade devida à sociedade, muitas vezes, é soterrada sob a propaganda e a retórica ideológica. Há, sim, uma necessidade premente de defender a liberdade de expressão e de organização contra a arbitrariedade, e de questionar o alinhamento de certas ações estatais ou judiciais com o bem comum.
No entanto, a resposta que deslegitima a priori todo e qualquer canal institucional é não apenas precipitada, mas profundamente equivocada. Ela confunde o povo com a massa, uma distinção crucial que Pio XII, em seu magistério, nos alertou. O povo é um corpo organizado, com hierarquias, órgãos intermediários e uma ordem moral pública que permite a deliberação e a busca do bem comum por vias justas. A massa, ao contrário, é um conglomerado desorganizado, facilmente manipulável e propenso à tirania de maiorias voláteis ou de grupos articulados. A “vontade das ruas”, sem os filtros da representação e do devido processo, pode ser tão despótica quanto o poder que pretende derrubar, esmagando minorias e desfazendo o tecido social em vez de reformá-lo.
A Doutrina Social da Igreja, desde Leão XIII, ensina-nos sobre a liberdade ordenada e a primazia da família sobre o Estado, mas também sobre a função social da propriedade e a necessidade de corpos intermediários que atuem entre o indivíduo e a vasta máquina estatal. Pio XI, com o princípio da subsidiariedade, nos exorta a fortalecer o que está mais próximo do cidadão, as associações livres, os sindicatos, as comunidades locais. Não se trata de endossar a idolatria do Estado ou a submissão cega à burocracia, mas de reconhecer que a ordem justa é construída pela paciente e incessante busca da verdade e da justiça em todas as esferas, inclusive nas políticas e legais. A desqualificação categórica de qualquer avanço por vias institucionais — como, ironicamente, a conquista do fim da escala 6×1 pelo Congresso, celebrada por alguns da esquerda – revela um reducionismo ideológico que recusa a possibilidade de bem onde ele não se enquadra em seu roteiro revolucionário pré-definido.
A justiça, virtude cardeal que nos inclina a dar a cada um o que lhe é devido, exige meios tão retos quanto os fins almejados. A paralisação econômica, por exemplo, por mais que expresse descontentamento, causa dano real a trabalhadores, a famílias, a toda a estrutura que garante a subsistência. A ajuda humanitária, mesmo quando instrumentalizada por um governo, não perde sua intrínseca bondade moral. Caracterizá-la, de forma simplista, como “política de furar greve” é negligenciar o imperativo da caridade e da solicitude para com os que sofrem, além de falsear a complexidade do cenário. Da mesma forma, classificar uma eleição como “fraudulenta” porque um candidato específico foi excluído, sem critérios objetivos de direito eleitoral, é substituir a veracidade dos fatos pela conveniência da narrativa. A democracia não se resume à inclusão de “quem o povo escolhe” se “povo” é definido a cada momento pelo arbítrio de uma fração.
O caminho da revolução política como “o único caminho” é uma negação da paciência histórica, da virtude da magnanimidade e da esperança teologal que nos impulsiona a construir, tijolo a tijolo, uma civilização mais justa. Chesterton, em seu paradoxo habitual, nos lembraria que o revolucionário, em sua ânsia de destruir o muro para ver o que está do outro lado, esquece de perguntar por que o muro foi construído em primeiro lugar. A sanidade contra a loucura lógica das ideologias exige que se reconheça o valor da estrutura que sustenta a vida em comum, mesmo quando ela necessita de reparos urgentes e profundos.
A verdadeira mudança não emerge do vácuo da destruição total, nem da desconfiança universal, mas da reta razão que discerne, da fortaleza que sustenta o trabalho paciente, da caridade que move a compaixão e da justiça que orienta a reforma. Edificar uma sociedade onde a dignidade da pessoa humana seja verdadeiramente respeitada é uma tarefa contínua, que passa pela pressão legítima e pela mobilização consciente, sim, mas também pela busca incansável do diálogo, da negociação e do fortalecimento das instituições que, por mais imperfeitas que sejam, são os únicos alicerces capazes de sustentar uma ordem social justa e duradoura.
Fonte original: Diário Causa Operária
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.