Quando a retórica eleitoral eleva a bandeira do progresso humano, mas ergue também o punho da acusação sumária, a vida pública entra em um terreno movediço. Não se trata apenas de uma disputa por votos, mas da própria fibra da verdade na política e da justiça no trato com o adversário. Em Barranquilla, o candidato Iván Cepeda encerrou sua campanha com um fervoroso discurso sobre um “segundo governo progressista” que priorizaria os excluídos, entregaria terras, expandiria a educação e combateria a corrupção “implacavelmente”. As conquistas do governo anterior foram apresentadas como fatos inquestionáveis de uma era de prosperidade social.
Contudo, a mesma voz que prometia um futuro para “todas e todos”, onde “não tem por que haver mais ricos, ricos, e pobres, pobres”, era também a voz que denunciava abertamente “clãs mafiosos” e “famílias poderosas”, e rotulava o principal jornal da cidade, El Heraldo, e a candidatura adversária de “opção fascista”, deplorável. Essa dualidade, essa esquizofrenia entre a aspiração universalista e a agressão particularista, revela uma das mais graves tensões de nossa época: a instrumentalização da esperança em nome de uma narrativa de confrontação irredutível. A preocupação legítima aqui não reside em duvidar da necessidade de combater a corrupção ou de buscar a equidade, mas em questionar se tais fins justificam meios que fraturam o diálogo e deslegitimam a própria base da convivência cívica.
A Doutrina Social da Igreja, particularmente nas lições de Pio XII sobre o “povo versus massa” e a comunicação responsável, adverte contra a tentação de manipular as aspirações populares com slogans e polarizações que reduzem cidadãos a meros elementos de uma massa mobilizável contra inimigos designados. A verdade, pilar de toda sociedade justa, exige que a crítica se baseie em fatos verificáveis e que as acusações, por mais graves que sejam, não se convertam em rótulos generalizantes que impedem a devida distinção e o respeito pela pessoa humana. Acusar sem provas claras, ou de forma indiscriminada, equivale a uma calúnia pública, um pecado contra a justiça e a caridade que corrói a confiança social. A luta contra a corrupção, por exemplo, deve ser implacável sim, mas submetida aos rigores da lei e da imparcialidade, para que não se confunda com perseguição política ou com a tentativa de eliminar adversários sob o pretexto da limpeza moral.
Quando se promete uma “economia produtiva e diversa” que inspire confiança em “grandes e pequenos empresários”, é preciso que a retórica pública não os coloque sumariamente no banco dos réus. A propriedade privada, como ensinava Leão XIII, possui uma função social, mas não pode ser demonizada por si mesma nem vista como inerentemente má. A prosperidade para “todas e todos” exige um ambiente de estabilidade e segurança jurídica, onde o investimento e a iniciativa não sejam tolhidos pelo temor de serem arbitrariamente classificados como “opulência” ilegítima ou “poderoso” a ser combatido. A coesão social é um bem tão fundamental quanto a erradicação da pobreza, pois uma sociedade em perpétua guerra interna será incapaz de sustentar qualquer progresso duradouro.
Chesterton, com sua perspicácia para o paradoxo, diria que o homem que promete ser o amigo universal do povo, mas começa por declarar guerra a vastos segmentos da sociedade — à mídia, a empresários, a opositores — sob pretextos ideológicos, é, na verdade, o maior inimigo da unidade que diz buscar. A sanidade política reside em reconhecer que a complexidade de uma nação não se esgota em maniqueísmos. Um “governo itinerante” que promete dialogar e “mandar obedecendo” soa virtuoso na teoria, mas pode, na prática, desmantelar a coesão administrativa e a accountability institucional, caso se torne um pretexto para contornar os freios e contrapesos inerentes a uma república. A “austeridade republicana” e a “luta contra a corrupção” não podem ser seletivas, servindo apenas aos propósitos de um grupo em detrimento da justiça igualitária para todos.
A verdade é que uma sociedade não se constrói sobre as ruínas da honra alheia nem sobre a demonização do dissenso. O caminho para a justiça social, para a verdadeira equidade, passa necessariamente pela veracidade no discurso, pela magnanimidade no trato com os adversários e pela humildade de reconhecer que ninguém detém o monopólio da virtude ou da intenção. Sem esses pilares, a promessa de um governo para “todas e todos” se esvai em um “nós contra eles” que, no fim, deixa apenas um rastro de desconfiança e divisões ainda mais profundas.
Um país que se define pela incessante fabricação de inimigos, mesmo que sob o pretexto da mais alta justiça social, condena-se a uma perpétua batalha que consome o alento de seu próprio futuro.
Fonte original: Hora do Povo
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.