A engrenagem do sistema eleitoral brasileiro, complexa e barulhenta, range sob o peso de críticas que a descrevem como “falida” e “prostituída”. A discussão sobre sua reforma é antiga e urgente, impulsionada pela legítima frustração de eleitores que veem a aparente desproporção entre votos nominais e assentos conquistados no parlamento. Há, de fato, uma dificuldade inerente ao sistema proporcional em traduzir diretamente a vontade individual do votante para a composição final das bancadas, gerando a percepção de que “os mais votados” nem sempre são os eleitos. Mas a simplificação do problema a essa única ótica, como se a política fosse um mero concurso de popularidade, revela uma miopia que ameaça a própria justiça da representação.
A doutrina social da Igreja, ao distinguir entre “povo” e “massa”, oferece uma chave para decifrar este enigma. O povo é uma comunidade orgânica, dotada de memória, cultura e propósitos comuns, cujos representantes devem expressar a diversidade de ideias e aspirações que o compõem. A massa, ao contrário, é um amontoado de indivíduos desorganizados, facilmente manipuláveis, onde o personalismo e a demagogia florescem. Um sistema eleitoral justo não se limita a contar votos individuais; ele busca tecer um parlamento que seja um retrato fiel do povo, com sua multiplicidade de correntes ideológicas, sociais e regionais. Os partidos políticos, embora muitas vezes alvo de críticas pertinentes pelo “caciquismo” e pela opacidade, deveriam ser os corpos intermediários vitais que agregam esses interesses, formulam programas e dão coerência à ação legislativa, e não meros balcões de negócios ou plataformas para celebridades. A subsidiariedade exige que essas estruturas estejam fortalecidas em sua função legítima, e não desmanteladas em nome de uma pureza individualista ilusória.
Propostas como o “distritão”, que defende a eleição exclusiva dos candidatos mais votados em cada circunscrição, ou o “distrital misto”, que combina elementos majoritários e proporcionais, devem ser avaliadas não apenas por sua eficácia em eleger “os mais votados”, mas por sua capacidade de edificar um corpo legislativo que represente a totalidade do “povo” brasileiro. Quando se acusa uma proposta de ter “endereço certo” para combater uma corrente política específica, a veracidade do debate se esvai, substituída pelo cálculo tático. O sistema de financiamento eleitoral, outrora refém de interesses ocultos do financiamento privado e agora majoritariamente público, deve ser discutido com sobriedade, separando a necessidade de transparência e equidade de ataques retóricos que desqualificam instituições ou eventos sem apresentar alternativas de governança transparentes e democráticas. A história recente demonstrou os riscos de um financiamento opaco para a ordem moral pública.
É aqui que a sanidade chestertoniana se faz necessária. Não há sistema eleitoral perfeito, e a busca por um modelo ideal que elimine todas as tensões é uma “loucura lógica” que ignora a realidade complexa da política e da sociedade. O valor de um sistema reside em sua capacidade de acomodar a diversidade, proteger as minorias e fomentar um debate programático, sem ceder à tentação de simplificar a representação à mera soma aritmética de votos pessoais. A defesa da casa, da família e do pequeno, para Chesterton, passava por estruturas sociais intermediárias que dessem voz e poder aos cidadãos comuns, não por um esvaziamento das instâncias coletivas em favor de individualidades isoladas, por mais populares que sejam.
A reforma eleitoral, portanto, precisa ser um ato de prudência política e justiça social. Não se trata apenas de mudar regras, mas de reavaliar os fundamentos da representação democrática. É preciso fortalecer a vida interna dos partidos, exigindo mais transparência e democracia em suas decisões, para que cumpram sua função de canais de expressão do povo, e não de feudos de “caciques”. Um sistema que valoriza apenas a popularidade individual corre o risco de criar um parlamento de ídolos efêmeros, mais preocupados com a própria imagem do que com a construção de uma ordem justa para a nação. A eleição de 2026 não pode ser apenas mais uma na série de pleitos marcados por um modelo “viciado”, mas a última a não ter sido precedida por um debate sincero e desprovido de ideologias redutoras. O desafio é construir um sistema que não apenas permita o voto, mas garanta a voz de um povo em sua digna plenitude.
A verdadeira vocação de um legislativo não é refletir quem grita mais alto, mas quem constrói o futuro com mais verdade.
Fonte original: Poder360
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.