A ânsia por uma explicação que una todos os fios da meada complexa da realidade pode, paradoxalmente, desembocar na mais profunda das cegueiras. Quando a lente do “imperialismo” e do “sionismo” é aplicada para destrinchar cada evento — da classificação de facções criminosas à ascensão de governos ou aos processos judiciais —, o que se ganha em coerência ideológica se perde em veracidade e em justiça, transformando a análise em dogma e a crítica em libelo. Rui Costa Pimenta, ao empunhar essa bandeira, ignora a espessa urdidura da história e o papel crucial da responsabilidade doméstica.
É certo que a influência de potências estrangeiras e de lobistas nas políticas internas de nações periféricas é um dado incontornável, e a possibilidade de classificações externas servirem de pretexto para intervenções é uma preocupação legítima. O realismo exige que se reconheçam as assimetrias de poder no palco global, como Leão XIII já advertia sobre os perigos da concentração econômica. Contudo, reduzir o crime organizado, como o Comando Vermelho ou o PCC, a um mero epifenômeno da “crise social” é ignorar a sua agência maligna, a violência sistêmica que exercem e a sua natureza transnacional. Tais organizações não são apenas vítimas das circunstâncias; são também agentes ativos de terror e desestabilização que demandam uma resposta multifacetada, que inclua a justa aplicação da lei, a inteligência e o combate financeiro, sem que isso implique, por necessidade, uma repressão indiscriminada ou a renúncia à soberania nacional. A justiça social exige atacar as raízes da pobreza, mas a justiça legal exige proteger o povo do banditismo.
A soberania, afinal, não é um vaso de cristal que se quebra ao primeiro atrito externo. A decisão de classificar facções brasileiras pelos Estados Unidos, por mais questionável em sua unilateralidade, não anula a capacidade do Brasil de repudiá-la legal e diplomaticamente, de negociar ou de definir suas próprias estratégias de segurança. A sugestão de que qualquer cooperação internacional, mesmo que seletiva e em defesa de interesses nacionais, configura uma “demolição da soberania” ignora a complexidade das relações diplomáticas e a necessidade de que os estados, enquanto “corpos intermediários” da ordem global, busquem o bem-estar de seus povos através de uma prudente diplomacia. É uma visão que, ao buscar um culpado externo para tudo, acaba por desempoderar os atores internos, isentando-os de sua parcela de responsabilidade.
Ainda mais premente é a questão que tange a veracidade no debate público, especialmente quando se trata de acusações de racismo ou antissemitismo. É um direito inalienável criticar as políticas de qualquer Estado, incluindo as de Israel. Mas a defesa intransigente desse direito não pode servir de escudo para relativizar ou justificar discursos que, sob a capa da “análise política”, adentram o terreno da hostilidade racial ou religiosa. A menção de processos judiciais por “avaliações sobre o Holocausto”, num contexto em que se denuncia um “lobby sionista” como motor de “perseguição implacável”, exige uma distinção rigorosa. A licença para o ataque pessoal ou para a incitação ao ódio mina a própria credibilidade da denúncia de perseguição e desvia o foco da legítima crítica política para um terreno pantanoso.
A história da “redemocratização” brasileira, ou a ascensão de governos de direita na América Latina, não é menos complexa. Atribuí-las unicamente a uma orquestração imperialista é desconsiderar as causas internas, as dinâmicas sociais, as falhas de governança e a agência política de milhões de indivíduos e grupos que, com suas virtudes e seus vícios, suas escolhas e seus erros, moldam o destino de suas nações. O povo, como Pio XII lembrou, não é uma massa inerte, mas uma comunidade viva, capaz de ação e resistência. Minimizar essa agência é diminuir a própria luta.
A busca pela verdade e pela justiça, que são pilares da ordem social justa, exige que nos desprendamos das amarras de um reducionismo ideológico. Os desafios que o Brasil e a América Latina enfrentam — do crime organizado à influência estrangeira — são reais e exigem respostas concretas, não apenas a repetição de rótulos generalistas. Discernir o que é problema moral real do que é abstração ideológica não é simular neutralidade, mas a condição para edificar um caminho de restauração e de liberdade ordenada.
A sanidade do juízo não reside em enxergar um único inimigo por trás de todas as máscaras, mas em ter a humildade de confrontar a complexidade multifacetada do real, para que a ação seja justa e a palavra, verdadeira.
Fonte original: Diário Causa Operária
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.