O relógio da popularidade presidencial no Brasil desregulou. Houve tempo em que o forno cheio e o emprego garantido eram a moeda corrente do apoio popular, um lastro quase infalível para a aprovação dos governantes. Hoje, a prosperidade econômica, ainda que notável em seus indicadores, já não oferece a blindagem de outrora. Essa é a nova realidade que se impõe, uma lente distorcida pela qual a nação parece enxergar seus líderes, e que exige um discernimento mais apurado sobre o que de fato move o povo.
A pesquisa do cientista político Fábio Vasconcellos, que cobre um quarto de século da vida brasileira, confirma a ruptura. Até 2014, a média de aprovação dos governos federais orbitava os 60%; Lula 1, mesmo em meio ao Mensalão, sustentou um patamar respeitável e seu sucessor, Lula 2, encerrou o mandato com 87%. A partir de 2015, porém, o contrato social mudou. Um presidente que em 2026 ostenta as menores taxas de desemprego e o maior rendimento médio da história recente amarga uma aprovação de apenas metade da população. O apoio básico desabou, em média, 21 pontos percentuais. A manutenção do emprego, antes motivo de júbilo, é vista agora quase como obrigação, e a inflação se tornou o gatilho solitário da insatisfação popular, corroendo 3,6 pontos de popularidade a cada 1% de IPCA bimestral.
É uma verdade incômoda que a subsistência material de uma família é o alicerce da vida digna. A inflação, como um ladrão silencioso, assalta a mesa do trabalhador, esvazia a carteira da dona de casa e frustra a expectativa de quem labuta. Nesses momentos, a percepção de justiça se quebra, e a reação popular se manifesta com uma força quase primária. Mas essa hipersensibilidade não é apenas uma resposta direta à corrosão do poder de compra; ela é amplificada e acelerada por um novo ecossistema de mídias digitais, onde o burburinho se transmuta em clamor em questão de segundos, forjando consensos efêmeros e voláteis.
Aqui, o perigo de uma nova assimetria de poder se agrava. O economista Yanis Varoufakis, ao falar dos “tecnolordes”, denuncia um poder soberano que migrou dos parlamentos e bancos centrais para os proprietários das Big Techs. Essas plataformas, com seus algoritmos onipresentes, modulam a informação e, por consequência, a própria percepção da realidade. Não se trata apenas de amplificar o que já existe, mas de conformar os sentimentos, de direcionar o olhar para o custo imediato em detrimento de uma visão mais ampla e justa. A pretensão de modelar a alma cívica através de fluxos digitais, sem transparência ou accountability, é uma manifestação da soberba que despreza a complexidade do real, um flagrante esquecimento da humildade necessária para lidar com o povo. Essa mesma pretensão, aliás, muitas vezes obscurece a responsabilidade dos próprios atores políticos em alimentar a polarização e a desconfiança que as redes apenas exacerbam.
Pio XII, em sua lucidez profética, já alertava para a diferença entre “povo” e “massa”. O povo é um corpo vivo, orgânico, com história e responsabilidade; a massa é uma aglomeração amorfa, suscetível a impulsos momentâneos, manipulável por emoções e slogans. A “hiper-reatividade” que a tese aponta é um sintoma dessa massificação, onde a capacidade de discernimento e de apreensão da veracidade dos fatos se perde em meio ao frenesi digital e à dor material imediata. A ordem moral pública se fragiliza quando a atenção se fragmenta e a reflexão é substituída pela reação.
A fratura estrutural na popularidade presidencial, portanto, não é um mero capricho do eleitor, nem um fenômeno puramente econômico ou tecnológico. Ela é a manifestação visível de uma crise de confiança e de uma desordem de valores que subjaz à vida pública. Reverter esse quadro exige mais do que a simples gestão de indicadores ou a tentativa de domar os algoritmos. Demanda um compromisso renovado com a veracidade – na comunicação governamental, na cobertura midiática e no discernimento individual. Exige a humildade de reconhecer que o governo é um serviço ao bem comum concreto, e não uma abstração a ser julgada por métricas fantasmas ou por meros gatilhos de insatisfação.
A cura para essa miopia cívica não virá de um passe de mágica, mas do trabalho árduo de reconstrução da vida comum, onde a clareza dos fatos e a sabedoria no juízo possam, por fim, dissipar a bruma densa que hoje cobre o olhar da nação.
Fonte original: Jornal Estado de Minas | Not�cias Online
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