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Política Potiguar: Veracidade em Jogo nas Alianças Eleitorais

No RN, mudanças de alianças e candidaturas expõem o custo da conveniência. Analisamos como financiamento eleitoral e pragmatismo atropelam princípios, esvaziando a veracidade da política potiguar.

🟢 Análise

A cena política, por vezes, oferece um espelho distorcido das verdadeiras prioridades. O que se apresenta como um movimento estratégico e calculista, muitas vezes esconde uma vacuidade de princípios ou uma rota de fuga de realidades incômodas. A retirada da pré-candidatura de Carlos Eduardo Alves ao Senado Federal no Rio Grande do Norte, envolta na narrativa de uma “orientação da direção nacional do União Brasil” e na seca de fundos eleitorais para a disputa senatorial, é mais que um ajuste tático; é um sintoma eloquente do mal-estar que corrói a veracidade na esfera pública.

Os fatos são claros: Carlos Eduardo, um político de longa data em Natal, sem mandato desde 2018 e com um histórico recente de derrotas em pleitos majoritários – governador em 2010 e 2018, Senado em 2022, prefeito em 2024 –, desiste de sua aspiração ao Senado. A justificativa oficial ecoa a voz do partido: prioridade para deputados federais e o governo estadual. Um roteiro que, se lido com os óculos do cinismo, soa como uma elegante forma de esconder a falta de viabilidade individual sob o manto da estratégia coletiva.

Mas o tabuleiro tem mais peças. A senadora Zenaide Maia, vice-líder do governo Lula no Congresso, eleita em 2018 na esteira da chapa petista e defensora da agenda social, agora se alinha com Allyson Bezerra, pré-candidato do União Brasil ao governo. Um rompimento local com o PT que, em termos de veracidade ideológica, beira o paradoxo. Mantendo a vice-liderança de um governo de esquerda, ela se engaja em uma aliança com um partido de outro espectro. Tal fluidez, ainda que celebrada por alguns como capacidade de diálogo, expõe a fragilidade da convicção em favor da conveniência eleitoral. Não se trata de fazer pontes, mas de usar as pontes para contornar rios que deveriam ser cruzados a pé, com as próprias pernas da coerência.

Carlos Eduardo Alves, por sua vez, reflete essa mesma instabilidade. Sua trajetória recente, marcada por filiações sucessivas – do PSD a convite da própria Zenaide Maia, para depois migrar para o União Brasil no fim do ano passado – pinta o quadro de uma busca incessante por um porto seguro, por um projeto que se adapte ao vento do momento, em vez de uma magnanimidade que ancore a embarcação em princípios firmes. O que se chama de pragmatismo, na política brasileira, muitas vezes se revela como falta de caráter ou, no mínimo, uma incapacidade de construir um projeto político autêntico e duradouro. É a sanidade invertida, a loucura lógica de quem muda tanto de rota que esquece o destino.

A Doutrina Social da Igreja, ao falar da ordem moral pública, lembra que a vida política não pode ser reduzida a um jogo de soma zero ou a um mero balcão de negócios. A priorização de recursos do fundo eleitoral, embora uma realidade do sistema, não pode justificar a instrumentalização de um político com um histórico de serviço público como um mero “ativo” a ser rearranjado no tabuleiro. A legitimidade de uma liderança se mede não pela capacidade de adaptação aos ventos, mas pela fidelidade a um programa, a um ideário, e, sobretudo, aos eleitores que esperam representação, não encenação. A vida política se esvazia quando a identidade partidária se torna apenas uma etiqueta a ser trocada, e o destino de uma candidatura se resolve mais pelo caixa do que pela causa.

O que este episódio desnuda, portanto, é menos a sofisticação da estratégia e mais a indigência de um sistema onde a busca por mandato e a necessidade de financiamento atropelam a veracidade das alianças e a magnanimidade dos propósitos. A política, sem o lastro de convicções e sem a coragem de assumir as próprias fraquezas, torna-se uma peça de teatro onde os atores trocam de máscara ao sabor do aplauso, e o espectador, cada vez mais cético, pergunta-se onde foi parar a peça.

Fonte original: Tribuna do Norte

⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.

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