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Escuta Pública: O Risco de Confundir Povo com Massa Política

A 'escuta pública' governamental, ao virar mobilização, esvazia a democracia. Distinguimos povo de massa, defendendo veracidade e subsidiariedade.

🟢 Análise

A promessa de escuta pública na arena política guarda uma nobreza intrínseca, um eco do ideal democrático que ressoa com a dignidade da pessoa humana em seu direito de moldar a própria comunidade. Foi com essa bandeira que o governador Jerônimo Rodrigues reuniu em Feira de Santana uma gama de figuras políticas e representantes sociais para a plenária do Programa de Governo Participativo (PGP 2026), prometendo construir o futuro a partir da “escuta direta da população, prefeitos, movimentos sociais, juventude, setor produtivo e lideranças políticas”. A importância de Feira de Santana como polo regional e os investimentos em saúde, saneamento e infraestrutura foram devidamente notados como fruto de uma administração atenta às demandas locais.

Contudo, quando a “participação popular” se converte, aos olhos atentos, em “mobilização política” ostensiva, e a “escuta” é permeada pela presença maciça de líderes da base governista e militantes convocados a “não baixar a cabeça” para as críticas, a nobreza da promessa se vê sob um véu de dúvida. A linguagem promocional da própria fonte, que celebra uma “agenda de mobilização” e uma “plenária lotada” com apoiadores, levanta a questão crucial: este é um processo genuíno de construção coletiva ou uma etapa cuidadosamente orquestrada para validar uma agenda pré-existente e consolidar apoios eleitorais?

A Doutrina Social da Igreja, ao distinguir o povo da massa, oferece uma bússola para este dilema. O povo é um corpo social que age com responsabilidade e deliberação, participando de forma autônoma e orgânica na vida pública. A massa, ao contrário, é um aglomerado passivo, facilmente manipulável por discursos unidirecionais. Um programa verdadeiramente participativo requer que os corpos intermediários – famílias, associações, empresas, sindicatos – funcionem como esferas autênticas de expressão e deliberação, e não como meros canais para a chancela de uma agenda já consolidada. É o princípio da subsidiariedade em ação: o que pode ser feito por instâncias menores e mais próximas ao cidadão, não deve ser avocato por uma autoridade superior que centraliza o processo e, por vezes, monopoliza a voz.

A virtude cardeal da veracidade exige que chamemos as coisas pelo nome certo. Se a finalidade primária de um encontro é a consolidação de uma base eleitoral e a validação de uma narrativa de governo, não se deve revesti-lo da roupagem de um fórum imparcial de construção coletiva. É neste ponto que a sagacidade de Chesterton se faria notar: a loucura moderna, não raro, consiste em tomar o acessório pelo principal, e a forma pela substância. Falar em “escuta popular” enquanto se orquestra um coro de apoio é um paradoxo que esvazia o próprio conceito de participação, transformando o diálogo em eco. A ausência de vozes da oposição ou de propostas que desafiem a narrativa governista na cobertura do evento não é um mero detalhe; é uma falha estrutural que compromete a representatividade alegada.

A justiça política, por sua vez, exige a consideração equânime de todas as vozes, não apenas as alinhadas. O governador, ao afirmar que “um governador pode muito, mas não pode tudo”, paradoxalmente aponta para a necessidade intrínseca de uma pluralidade real de contribuições e de uma abertura genuína à crítica construtiva. A pretensão de “construir” um programa a partir de uma “escuta” que ignora o dissenso ou o minimiza como “ataque político” não edifica a vida comum; ao contrário, mina a confiança pública e fragiliza o tecido social. Um programa de governo que realmente busca o bem da cidade e o destino comum não pode temer a pluralidade de ideias, mas deve acolhê-la como oxigênio vital para o discernimento reto.

A verdadeira participação, aquela que dignifica o cidadão e robustece a polis, não se contenta com a encenação, mas se constrói na verdade dos fatos e na coragem de ouvir o que precisa ser dito, mesmo que dissonante.

Fonte original: Jornal Grande Bahia (JGB)

⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.

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