O navio da República, por vezes, assemelha-se a uma embarcação em águas revoltas, cujos remos puxam em direções contrárias enquanto o capitão busca uma rota entre ilhas de interesses fragmentados. A recente rejeição da indicação de Jorge Messias ao Supremo Tribunal Federal, somada à lentidão em pautas como a regulamentação da jornada 6 por 1, descortina não apenas um revés tático para o governo, mas um desafio mais profundo à própria noção de governabilidade. Breno Altman, com a acidez própria dos analistas que clamam por fronteiras nítidas, acende um farol sobre a “fraqueza” que, ele adverte, não angaria votos nem respeito, e que exige uma resposta “anti-sistema” mais contundente.
Há uma verdade inegável no alerta de que governos percebidos como frouxos perdem apoio e capacidade de ação. A frustração de uma base social que vê seus anseios legislativos arrastarem-se por “quase um ano”, ou que observa figuras de blocos adversários permanecendo em cargos-chave, é uma preocupação legítima. O clamor por uma liderança que não hesite em se distinguir de seus “inimigos do povo” ecoa o desejo de clareza e coerência. Mas a política concreta, especialmente num sistema de presidencialismo de coalizão fragmentado como o brasileiro, não se dobra facilmente à pureza ideológica que se exige dos puristas. É um terreno minado de alianças contingentes, onde o gradualismo, longe de ser sempre fraqueza, pode ser uma forma de prudência necessária à simples movimentação da máquina pública.
O risco da paralisia institucional é um espectro que ronda toda a ação política. Pio XI, ao advogar pela subsidiariedade, já alertava contra a centralização excessiva de poder e a dissolução dos corpos intermediários. O Congresso Nacional, com todas as suas idiossincrasias e interesses, é um desses corpos vivos, e sua autoridade não pode ser sumariamente descartada como mera obstrução. Confrontar o Parlamento abertamente, sem distinção entre oposição principista e negociação tática, pode gerar uma imagem de força que, na prática, culmina em impotência. O governo, neste cenário, se tornaria um atleta de retórica, forte no discurso, mas incapaz de cruzar a linha de chegada das políticas públicas essenciais.
O que se exige, em matéria de justiça, é a reta aplicação do direito e a clareza dos fins. Se a retórica exige “manter preso Bolsonaro, os generais, e anistia para toda a raia miúda”, estamos diante de um problema de duas ordens. Primeiro, a aplicação da lei deve ser isonômica e despolitizada, sob pena de a própria justiça se tornar instrumento de facção. Segundo, a distinção feita por Pio XII entre “povo” e “massa” é aqui instrutiva: a massa ideologizada pode clamar por uma justiça seletiva, mas o povo, em sua organicidade e pluralidade, demanda a ordem moral pública que garanta a todos a mesma balança. Não há fortaleza onde falta equidade; a força de um governo é medida pela justiça que ele inspira e protege, não pela capacidade de curvar a lei a seus desígnios parciais.
A tentação de buscar uma “imagem antissistema” em detrimento da ação pragmática pode, paradoxalmente, levar a um governo mais frágil, não mais forte. Chesterton, em sua peculiar sanidade, advertiria contra a loucura lógica de quem, em nome de um ideal, destrói as próprias condições de sua realização. A força de um governo não se mede pela ausência de negociação, mas pela capacidade de, no labirinto das forças políticas, manter-se fiel a seus princípios enquanto avança com políticas concretas que beneficiem o bem da cidade. A permanência de “indicados por Alcolumbre”, por exemplo, pode ser vista como concessão à fraqueza, ou como custo político para a aprovação de outras pautas, num cálculo que demanda sabedoria e fortaleza para discernir o que é estratégico e o que é rendição.
A verdadeira fortaleza de um governo, portanto, não reside em proclamar-se “anti-sistema” enquanto se enreda em disputas que paralisam. Ela se manifesta na capacidade de discernir onde a negociação é um imperativo prudencial para o bem comum e onde a firmeza é um dever inegociável em matéria de princípios morais. A tarefa do governante não é agradar a uma facção com símbolos de pureza, mas construir a ordem justa que sirva ao país em sua totalidade. Isso exige coragem para fazer concessões táticas sem ceder na substância e honestidade para comunicar os limites da ação em um sistema complexo.
O desafio que se impõe ao governo, após as derrotas e as críticas, não é o de escolher entre a guerra total ou a rendição incondicional. É o de encontrar o caminho da Justiça na navegação do poder, com a Fortaleza necessária para distinguir o compromisso prudente da fraqueza moral, edificando resultados concretos que superem a retórica das trincheiras e sirvam ao verdadeiro bem comum da na nação.
Fonte original: Brasil 247
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.