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Peru: Eleição Presidencial, Autoritarismo e Populismo

Peru: eleição presidencial entre Fujimori e Sánchez. O país busca ordem, mas debate entre autoritarismo e populismo instável, em meio à violência e corrupção.

🟢 Análise

O Peru está à beira de uma escolha que, paradoxalmente, parece aprisioná-lo ainda mais em seu labirinto histórico. O segundo turno presidencial, protagonizado por Keiko Fujimori e Roberto Sánchez, não oferece uma saída clara para a desordem, mas sim a encruzilhada entre o fantasma de um autoritarismo já condenado e a sombra de um populismo que prometeu, e falhou, em estabilizar a nação. Com nove políticos na cadeira presidencial em uma década e uma taxa de homicídios que duplicou em dez anos, atingindo 10,7 a cada 100 mil habitantes, a população clama por segurança e estabilidade, mas as opções apresentadas parecem um roteiro para mais instabilidade.

A ficha dos fatos é implacável. Keiko Fujimori, em sua quarta disputa de segundo turno, acena com a memória de um regime familiar que, embora evocado por alguns como “linha dura” contra o crime, deixou um rastro de condenações por corrupção, violações de direitos humanos, massacres e a vergonha dos “juízes sem rosto”, que levaram centenas de inocentes à prisão. Sua promessa de “expulsar cidadãos sem documentos” e “reintegrar juízes sem rosto” é um desrespeito frontal à ordem jurídica e aos tratados internacionais de direitos humanos, já ignorados pelo Tribunal Constitucional peruano em relação a seu pai. Do outro lado, Roberto Sánchez, ex-ministro de um Pedro Castillo que tentou um autogolpe e foi preso, propõe uma “refundação da pátria” que evoca a retórica maximalista de estatização e alteração constitucional radical, sob o pretexto de democratizar a riqueza. Essa via, contudo, é permeada pela instabilidade, como demonstrado pela efêmera e caótica administração anterior, e por acusações ainda não provadas pelo Ministério Público.

Nessa paisagem de escolhas apertadas, é um paradoxo amargo que a busca desesperada por ordem conduza, uma vez mais, a propostas que já semearam desordem e injustiça. As preocupações legítimas da população — a escalada da violência, a corrupção endêmica e a instabilidade política crônica — são reais e clamam por soluções. No entanto, o dilema reside em discernir o que é um problema moral real de um vício ideológico, seja ele o autoritarismo disfarçado de eficácia ou o populismo que desdenha a lei. O “povo”, como distinguia Pio XII, não é uma “massa” amorfa a ser manipulada por líderes carismáticos, mas um corpo vivo de cidadãos com direitos inalienáveis e deveres cívicos, cuja dignidade é a medida de toda ação política.

A resposta não se encontra na nostalgia de um passado autoritário que sacrificou a justiça em nome da força, nem na aventura de uma “refundação” que pode implodir a ordem institucional que, por frágil que seja, ainda serve de alicerce. A verdadeira ordem justa não pode ser construída sobre a anulação do devido processo legal, o desprezo às cortes internacionais ou a criminalização generalizada de minorias. Pelo contrário, exige a veracidade histórica para encarar o legado de erros, a coragem de reformar as instituições sem as implodir, e a perseverança em fortalecer a liberdade ordenada por uma lei que seja a expressão da razão e do bem comum, e não do arbítrio do governante ou do clamor momentâneo das paixões.

O Peru não precisa de salvadores que prometam a ordem à custa da justiça, nem de refundadores que desdenhem a estabilidade. Precisa, antes, da justiça intransigente que respeita o devido processo, da veracidade corajosa que encara o legado de erros, e da perseverança do povo que, sem se tornar massa, edifica sua casa comum sobre a rocha da lei e da dignidade, e não sobre a fumaça de ideologias.

Fonte original: Folha de S.Paulo

⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.

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