Uma sociedade, como um edifício, não se ergue sobre escombros ou sobre a promessa vazia de um futuro implodido, mas sobre alicerces firmes de lei e de uma justiça que se constrói, não se impõe pelo desvario. É com essa premissa que se deve observar o clamor do Partido da Causa Operária (PCO), que, na voz de seu presidente Rui Pimenta, proclama a falência irremediável das instituições e a necessidade de uma “revolução política” forjada na “mobilização popular”, mesmo que esta se manifeste com bloqueios de estradas, paralisação econômica e “mineiros armados de dinamite”. A retórica é clara: se o povo se levanta para derrubar um governo, isso seria “a coisa mais democrática que existe no mundo”, mesmo que signifique o que normalmente se chama de golpe.
Não há dúvida de que as instituições políticas e jurídicas, tanto no Brasil quanto na Bolívia ou em qualquer nação marcada pela imperfeição humana, podem apresentar falhas graves, corrupção e um distanciamento preocupante das necessidades do povo. A Doutrina Social da Igreja, desde Leão XIII, que advogava pela família como sociedade primeira e por uma liberdade ordenada, até Pio XI, com sua defesa da subsidiariedade e crítica à estatolatria, reconhece a necessidade de uma ordem social justa e de reformas que corrijam abusos. O problema surge quando a crítica legítima se transmuta em um convite à anomia e à destruição total, sem um plano para edificar algo verdadeiramente melhor.
A proposta de “resolver o problema nas ruas” com greves gerais, bloqueios e o uso explícito da força, como os “mineiros armados de dinamite” na Bolívia, representa um risco calculado de colapso social e humanitário. O custo de tal “revolução” recai, invariavelmente, sobre os ombros dos mais vulneráveis, aqueles que dependem da estabilidade econômica e da segurança pública para sua subsistência. A promessa de uma “vitória esmagadora” pela via da desordem ignora a lição da história: a destruição total das estruturas existentes raramente leva à liberdade, mas sim a um vácuo de poder que é preenchido por novas formas de autoritarismo, tão ou mais opressivas que as anteriores. A veracidade exige que não se romantize a violência nem se redefina conceitos essenciais como “democracia” para justificar a barbárie.
A ideia de que “ninguém vai mudar o Brasil por meio das instituições atuais” é um reducionismo perigoso. Embora o progresso seja lento e muitas vezes frustrante, as reformas incrementais, a participação crítica e a pressão cívica dentro do Estado de Direito são os caminhos mais seguros e sustentáveis para a construção de sociedades mais justas. A tentativa de deslegitimar por completo os processos eleitorais, o Congresso e o Judiciário, apresentando-os como meros instrumentos de uma “burguesia” ou de um “imperialismo” abstrato, mina a própria capacidade de construir consensos e de proteger os direitos das minorias. Esse discurso maniqueísta, que divide o mundo entre o “povo” sempre puro e o “Estado” sempre corrupto, aliena e polariza, em vez de unir em torno do bem real da cidade.
A Igreja defende a dignidade da pessoa humana e a necessidade de uma ordem justa que a preserve, e não uma que a submeta ao caos ou à tirania de qualquer grupo. A ajuda humanitária, por exemplo, como a que o governo brasileiro enviou à Bolívia, deve ser avaliada por seus méritos intrínsecos de socorro ao necessitado, e não automaticamente desqualificada como uma “política de furar greve”. A justiça social, tal como ensinada pela Doutrina Social da Igreja, não se resume à luta de classes, mas à busca da reta ordenação das relações humanas, à proteção da propriedade com função social e ao fortalecimento dos corpos intermediários que evitam a massificação do povo e a estatolatria.
A crítica às instituições deve ser sempre acompanhada de uma proposta construtiva e moralmente lícita. As denúncias de perseguição judicial, de leis draconianas ou de eleições questionáveis merecem análise atenta e o uso dos recursos legais disponíveis, como o PCO, ironicamente, faz em sua própria defesa. No entanto, o chamamento aberto à desestabilização violenta e à destruição das estruturas vigentes não é um caminho para a liberdade, mas um atalho para a servidão e para o sofrimento. A esperança não se apoia na implosão do que existe, mas na tenaz e virtuosa obra de reparação e aperfeiçoamento constante, sem a qual nenhuma sociedade resiste ao tempo.
A verdadeira emancipação não reside no grito que derruba, mas na paciente e laboriosa construção da casa comum, que abriga e protege a todos sob a égide do direito e da paz.
Fonte original: Diário Causa Operária
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.