A diplomacia, por vezes, mais se assemelha a um jogo de espelhos do que à construção paciente de uma paz duradoura. O que hoje se anuncia como um avanço na complexa teia de negociações entre Estados Unidos, Israel e Irã, ao fim e ao cabo, revela-se menos uma solução e mais um reposicionamento tático, uma pausa precária em um conflito que persiste sob a superfície. Os fatos são teimosos: uma guerra iniciada com objetivos maximalistas — fim do programa nuclear iraniano, mudança de regime, restrição de mísseis e desarticulação de aliados regionais como Hezbollah e houthis — agora se contenta com uma liberação da via marítima no Estreito de Hormuz e o descongelamento de ativos, enquanto as questões mais espinhosas são relegadas a uma incerta “segunda fase”.
A verdade exigiria clareza sobre o descompasso entre o que foi publicamente almejado e o que realmente se pactua. Israel, por meio de seu primeiro-ministro, Netanyahu, declara-se “em guerra contra o Hezbollah”, ao mesmo tempo em que os rascunhos de acordo silenciam sobre a rede de aliados de Teerã. Centenas de mortos no Líbano após o cessar-fogo de abril atestam que a cessação das hostilidades é, para alguns atores, uma licença para redefinir o campo de batalha, não para abandoná-lo. Esta é a antítese de uma paz justa, onde o conflito periférico é instrumentalizado para ganho tático, desrespeitando a soberania e a vida de populações inteiras.
É inegável que a busca por desescalada e o gerenciamento de riscos de uma guerra total podem ser objetivos pragmáticos. Evitar uma catástrofe maior é, em si, um bem para o povo, que arca com os custos da beligerância. A liberação de US$ 24 bilhões em ativos iranianos, por exemplo, pode ser vista como uma concessão calculada para garantir a adesão a etapas iniciais, evitando um cenário ainda mais custoso. No entanto, o realismo político, quando descolado de princípios de *justiça* e *veracidade*, pode pavimentar um caminho ainda mais perigoso, sob a ilusão de controle.
A Doutrina Social da Igreja, particularmente através do ensinamento de Pio XII sobre a *ordem moral pública* e a distinção entre *povo e massa*, nos oferece um farol. Uma nação não deve ser tratada como mera “massa” a ser manipulada por interesses geopolíticos, mas como um “povo” com direito a uma ordem justa e transparente. A continuação de ataques por uma das partes, mesmo após a assinatura de um cessar-fogo, mina a confiança e a legitimidade de qualquer processo de paz. A insistência iraniana em reter 440 quilos de urânio enriquecido a 60%, adiando a discussão sobre seu programa nuclear, revela que o acordo em pauta é mais um armistício forçado pela exaustão e pelo cálculo político do que um pacto fundado na segurança mútua e na boa-fé.
A verdadeira *veracidade* exige que se chame as coisas por seu nome. Não se pode alardear uma “paz” que ignora os focos de instabilidade regional ou que adia indefinidamente a resolução das questões nucleares centrais. Tal “paz” corre o risco de fortalecer os elementos mais intransigentes de todos os lados, que veem na ambiguidade uma oportunidade e na falta de compromisso um incentivo. O cinismo de quem cita a máxima de Roy Cohn — “Não importa o que aconteça, você sempre declara vitória e nunca admite derrota” — torna-se um triste epítome de um processo onde a forma suplanta a substância, e a narrativa ofusca a realidade.
Uma paz duradoura não se constrói na areia movediça da conveniência tática ou de ameaças veladas, mas sobre a rocha da *justiça* e da *veracidade* que impele as nações a um compromisso que se sustente por si mesmo. Sem isso, o que se assina hoje é apenas um breve intervalo, uma respiração tensa antes do próximo round, não uma paz que honre a dignidade das nações e a vida de seus povos.
Fonte original: Folha de S.Paulo
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.
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