A tapeçaria da geopolítica, muitas vezes, tece seus fios em tons de cinza, onde a virtude se mistura com o cálculo e a paz, não raro, se confunde com a mera ausência de tiros. Quando o presidente de uma potência global proclama um “acordo em grande parte negociado” para selar a “PAZ” no Oriente Médio, e a outra parte o descreve como um “acordo-quadro” com “diferenças” a serem ainda discutidas em “30 a 60 dias”, o que emerge não é um amanhecer de harmonia, mas a penumbra de uma ambiguidade perigosa. Fica a dúvida se estamos diante de um passo real rumo à ordem ou de um expediente pragmático que adia, a custo da verdade, o confronto que se recusa a encarar.
A verdadeira paz, ensina a doutrina, é fruto da justiça, não um verniz aplicado sobre feridas abertas. Se os termos essenciais – como a capacidade nuclear iraniana e o levantamento de sanções – são postergados, enquanto a Guardas Revolucionária iraniana reconstitui velozmente seus ativos militares e a proposta de um “pedágio” no estratégico Estreito de Ormuz continua a ser um pomo de discórdia, não se edifica a paz, mas se ergue um andaime frágil sobre um abismo. A liberdade de navegação nas vias marítimas internacionais não é uma concessão a ser tarifada, mas um direito que garante a vitalidade do comércio e a autonomia das nações. Reivindicações soberanas sobre espaços compartilhados devem submeter-se à lei natural do uso comum dos bens essenciais.
Enquanto diplomatas trocam propostas e prazos, os fatos em campo desenham um quadro de persistente injustiça. As acusações de agressões brutais e sexuais a ativistas de uma flotilha em águas internacionais, as condenações de nove nações ocidentais à expansão de colônias israelenses e a contagem de mais de três mil mortos no Líbano, mesmo sob um “cessar-fogo frágil”, são gritos que não podem ser silenciados em nome de uma conveniência política. Uma “paz” que não endereça a dignidade da pessoa humana ferida e os direitos violados é uma trapaça, uma paz para a massa, não para o povo, como advertia Pio XII. Ignorar tais violações é corromper o próprio conceito de justiça, que deve preceder e sustentar qualquer acordo duradouro.
A busca por uma solução rápida, impulsionada talvez pela urgência de um mandato ou pela pressão de um conflito custoso, pode levar à tentação de aceitar uma “paz” que é, na verdade, uma trégua precária. Chesterton nos lembraria do paradoxo: o homem moderno, na sua ânsia de resolver tudo, acaba por aceitar soluções que negam a própria realidade do problema. A demissão da Diretora de Inteligência Nacional dos EUA, Tulsi Gabbard, que havia anteriormente desafiado a narrativa sobre a iminência de uma arma nuclear iraniana, adiciona um matiz de cautela, sugerindo que a narrativa oficial pode estar sendo “ajustada” para facilitar a aceitação do acordo, independentemente da veracidade plena dos fatos.
A diplomacia, para ser eficaz e moralmente legítima, não pode flertar com a ilusão. Ela exige honestidade brutal sobre os desafios e uma fortaleza inquebrantável para não ceder à tentação de uma paz que apenas posterga a guerra. Não se pode esperar que um edifício de concórdia se mantenha de pé se seus alicerces são a mentira, a evasão e a omissão das questões mais espinhosas. Um acordo que não visa resolver as raízes da inimizade – como o programa nuclear, as sanções econômicas e o respeito ao direito internacional no Estreito de Ormuz – é apenas um mapa de tréguas, um fôlego momentâneo antes da próxima batalha.
A verdadeira responsabilidade, a que visa o bem da cidade e a paz social duradoura, exige que os líderes não se contentem com o silêncio dos canhões enquanto a injustiça prossegue. É preciso que, mesmo na complexidade das negociações, o objetivo final seja uma paz ordenada, fundada na verdade e na justiça para todos os povos da região.
Um acordo que não enfrenta as razões profundas do conflito é apenas um hiato, não um destino.
Fonte original: O Povo
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.