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Israel e Líbano: Paz sob Fogo Cruzado da Retórica Diplomática

Negociações de paz entre Israel e Líbano se iniciam sob ataques do Hezbollah. A retórica diplomática esconde a realidade. Paz duradoura exige justiça e verdade.

🟢 Análise

Quando os diplomatas se sentam à mesa em Washington e brindam a “oportunidades históricas”, é fácil que a cortina de fumaça da retórica encubra a crueza dos fatos. Anunciam-se negociações diretas entre Israel e Líbano, o primeiro diálogo de alto nível desde 1993, um marco que, segundo o secretário de Estado americano, Marco Rubio, delinearia um “quadro de paz duradoura”. Mas, na mesma Terça-feira 14, enquanto as palavras eram proferidas, foguetes do Hezbollah rasgavam o céu do norte de Israel, lembrando a todos que a paz, neste teatro de guerra, não se decreta por atas diplomáticas, mas se constrói sobre alicerces de verdade e justiça que ainda faltam.

A celebração de um “intercâmbio maravilhoso” ou a declaração de que se está “do mesmo lado” para “libertar o Líbano do Hezbollah”, como afirmou o embaixador israelense Yechiel Leiter, soa como um paradoxo amargo para quem observa o drama real. Um milhão de libaneses foram deslocados e mais de duas mil vidas perdidas em ataques israelenses, segundo autoridades libanesas. O Hezbollah, ator fundamental na cena libanesa, rechaça as conversas, promete continuar lutando e lança foguetes no exato momento do diálogo. A insistência israelense no desmantelamento do grupo como pré-condição para um cessar-fogo não é uma questão diplomática, mas militar, e expõe a fragilidade de qualquer acordo que o governo libanês, em sua fragmentada soberania, não possa garantir.

A mediação americana, essencial para reunir as partes, carrega o peso de uma ambiguidade insustentável. Os Estados Unidos, ao mesmo tempo que buscam a paz, participaram de bombardeios conjuntos com Israel contra o Irã e impõem bloqueios “perigosos e irresponsáveis”, nas palavras da China, no Estreito de Ormuz. Essa postura de beligerante e mediador simultaneamente corroeu a confiança necessária para “negociações sérias”, como bem apontou o Secretário-Geral da ONU, António Guterres. As exigências para o programa nuclear iraniano – 20 anos de suspensão pedidos pelos EUA contra os 5 anos propostos por Teerã – revelam um abismo que nenhuma retórica de “cessar-fogo frágil” pode transpor.

A Doutrina Social da Igreja nos ensina que a paz não é a mera ausência de guerra, mas a tranquilidade da ordem, fruto da justiça. Essa ordem exige o reconhecimento da dignidade da pessoa humana, especialmente dos vulneráveis e dos que sofrem. Não se pode falar de paz e normalização enquanto um milhão de pessoas estão deslocadas e famílias enterram seus mortos, sem um plano concreto de reparação e segurança imediata. A justiça não permite que o sofrimento humanitário seja uma nota de rodapé nas grandes manobras geopolíticas. É preciso, como advertiu Pio XII ao falar da diferença entre “povo e massa”, que o foco esteja nos homens e mulheres concretos, e não nas abstrações das conveniências estratégicas.

A verdadeira veracidade impõe reconhecer que a presente rodada de negociações, por mais bem-intencionada que seja em alguns aspectos, parece mais um curativo sobre uma ferida profunda do que uma cirurgia para extirpar o mal. O bem da região – a paz social duradoura – não será atingido sem que se enfrente a assimetria de poder, a legitimidade dos atores não-estatais e, sobretudo, a causa radical do ódio e da desconfiança. As soluções impostas por coerção, e não por consentimento livre e justo, serão sempre temporárias, como uma casa construída sobre a areia.

A subsidiariedade exige que as soluções para o Líbano venham de dentro, com o fortalecimento de seu Estado e a integração de todas as forças sociais, e não por imposição externa que ignore a realidade do terreno. A solidariedade interpela a comunidade internacional a ir além da mera gestão de crises e a apoiar a reconstrução moral e material de um país tão martirizado. O caminho para a paz no Oriente Médio não é de atalhos diplomáticos, mas de uma reta via de justiça e veracidade, que exige de todas as partes uma conversão real do coração e um compromisso inabalável com o destino comum dos povos daquela terra.

A paz não é uma foto de aperto de mãos, mas a vida cotidiana reconstruída sobre a verdade e o direito.

Fonte original: VEJA

⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.

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