O “tocador de obras” que se apresenta para governar é figura que, de tempos em tempos, retorna ao palco da política paranaense. Sandro Alex, ao assumir a pré-candidatura pela mão do governador Ratinho Junior, ergue a ponte de Guaratuba como emblema e o expressivo crescimento do PIB estadual como credencial. O discurso é de um “time que resolve”, capaz de transformar uma secretaria antes marcada por escândalos em motor de investimentos bilionários, impulsionando portos e rodovias a novos patamares. Há, sem dúvida, um apelo visível na capacidade de entregar o concreto, o mensurável, o que desafia o “impossível” e promete um estado com alta capacidade de investimento. É a lógica da eficiência material posta à prova na arena eleitoral, buscando a continuidade de um legado que se apresenta como inequívoco sucesso.
Contudo, a grandeza de um edifício não se mede apenas pela solidez de suas fundações ou pela altura de sua fachada, mas pela qualidade da vida que ele abriga. É aqui que o convite à “continuidade” e a ênfase nas “obras” pedem um discernimento mais profundo. O Paraná, como bem apontado, hoje conta com mais idosos do que crianças. Este dado, aparentemente simples, é um clamor por políticas públicas que transcendam a mera infraestrutura. De que adiantam pontes grandiosas se as pontes sociais para o cuidado dos mais velhos, para uma educação que prepare as novas gerações para desafios inéditos, ou para a saúde que sustente uma vida longa e digna, não são construídas com igual dedicação? O desenvolvimento não pode ser um reducionismo economicista, que superestima o PIB e as toneladas movimentadas em portos como sinônimos automáticos de vida boa. A verdadeira prosperidade integral de um povo abrange a dimensão social, cultural e espiritual, e exige que os bens materiais sirvam aos bens humanos, e não o contrário.
A dicotomia entre o “time que resolve” e o “time que reclama” é, no mínimo, uma simplificação perigosa. A voz crítica, o questionamento sobre o que falta, sobre as desigualdades persistentes ou sobre as carências não atendidas, não é mera “reclamação”. É o pulsar da sociedade, o anseio por justiça, o necessário contraponto que impede a soberba da autossuficiência e a cegueira do poder. Um governo sábio, fundamentado na humildade, ouve até mesmo a voz discordante, pois sabe que a verdade não é monopólio de um único grupo, nem a solução para todos os problemas reside em uma única matriz ideológica ou técnica.
A mesma atenção se deve à pauta da integridade pública. Afirmar que o combate à corrupção “pertence ao Senado, não ao Paraná” é desviar o olhar de uma responsabilidade inescapável a todo e qualquer nível de governo. A honestidade e a veracidade na gestão dos recursos públicos são virtudes cardeais que devem permear cada secretaria, cada obra, cada contrato, do menor município ao maior programa estadual. O histórico de uma secretaria “nas páginas policiais”, mesmo que superado pela retidão de uma gestão, exige a implementação de mecanismos sistêmicos e transparentes que garantam que a conduta ética não dependa apenas da virtude pessoal de um líder, mas da solidez das instituições e do escrutínio público constante. É preciso não apenas resolver problemas passados, mas construir barreiras impenetráveis para o futuro.
Assim, o desafio para o próximo governo paranaense é ir além da retórica da execução e do crescimento quantitativo. É preciso manifestar a magnanimidade de alma para olhar o estado em sua complexidade, para discernir onde o investimento em cimento deve ser acompanhado ou até precedido pelo investimento no capital humano e social. É a hora de fortalecer os corpos intermediários da sociedade, as famílias, as associações, as comunidades, reconhecendo que a vitalidade do Paraná reside na capacidade de seus cidadãos de se organizar e atuar, e não apenas de esperar soluções do governo central.
A verdadeira herança que um governante pode deixar não é apenas o rastro de asfalto ou o brilho de um porto, mas a capacidade de seu povo de viver com justiça, dignidade e esperança. É a construção de uma cidade que, além de ser um centro de produção e escoamento, seja um lar para todos os seus filhos, do mais jovem ao mais idoso, com atenção aos invisíveis e aos esquecidos. A grandeza de um governo não reside em simplesmente “tocar obras”, mas em edificar uma vida comum que ressoe a verdadeira ordem dos bens.
Fonte original: Bem Paraná
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.
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