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Honra Cívica Desvirtuada: Títulos Políticos no Grande ABC

39 títulos de honra cívica no Grande ABC, em ano pré-eleitoral, levantam suspeitas de uso político. A distinção é desvirtuada, minando a confiança pública. Legislativos precisam de rigor e transparência.

🟢 Análise

A coroa cívica, o galardão de cidadão honorário, não é um troféu a ser leiloado no balcão da política, mas o reconhecimento solene de uma vida dedicada ao bem da comunidade local. É o louvor público de um povo a quem se fez merecedor. Contudo, o que se observa no Grande ABC, onde 39 potenciais pré-candidatos foram ou serão agraciados com tais títulos desde 2024, em plena antesala do pleito de 2026, soa mais como uma moeda de troca eleitoral do que um tributo à virtude. A coincidência não é mero acaso; é um padrão que convida à mais aguda das desconfianças.

Não se nega que figuras públicas de projeção estadual ou nacional possam, legitimamente, prestar serviços relevantes a um município. A soberania do legislativo local, afinal, lhe confere a prerrogativa de conceder tais honrarias. Mas essa prerrogativa, como qualquer poder, deve ser exercida com retidão. Quando se detecta um “intercâmbio de cidadania” — vereadores de uma cidade agraciam um político estadual, que, por sua vez, é homenageado por colegas noutros municípios, muitas vezes de seu próprio espectro partidário — a justificação do “mérito genuíno” começa a fazer água. A tese de que é apenas o reconhecimento de influência perde força quando, por exemplo, o senador Marcos Pontes recebe título em São Caetano do Sul sem que suas prestações de contas demonstrem qualquer recurso destinado à cidade. Tal prática, longe de dignificar, avilta a instituição.

A Doutrina Social da Igreja, ao delinear a finalidade da vida política, recorda que a autoridade existe para servir a vida comum, e não para instrumentalizar honrarias cívicas em proveito partidário. A justiça exige que o que é devido ao mérito não seja confundido com o que é concedido por cálculo político. A veracidade, por sua vez, impõe que as motivações por trás de um ato público sejam transparentes e honestas. Um título de cidadão honorário não pode ser convertido em capital eleitoral disfarçado, nem a maior honraria municipal em um simples convite para um palanque. Quando a homenagem a um governador é rejeitada em Mauá, mas aprovada em outras cinco cidades, fica claro que a decisão nem sempre repousa sobre a objetividade dos serviços prestados, mas sobre o alinhamento político do momento.

Se Chesterton estivesse a observar, talvez apontasse o paradoxo: a mais alta honraria cívica, quando convertida em moeda de troca política, paradoxalmente avilta não só o agraciado, mas a própria sanidade do corpo cívico. O que deveria ser um sinal de gratidão e reconhecimento desinteressado se transmuta em peça de um complexo xadrez eleitoral. Este uso desvirtuado corrói a confiança pública nas instituições e na própria ideia de serviço desinteressado. A distinção entre o povo, que deve ser servido, e a massa, que pode ser manipulada, torna-se indistinta quando a honra é distribuída como um panfleto pré-eleitoral.

Para resgatar a integridade dessas honrarias, é imperativo que os legislativos municipais retornem aos princípios. Os critérios para a concessão de títulos de cidadão honorário devem ser rigorosos, focando em serviços concretos e comprováveis à comunidade local, e não em mera visibilidade política ou em acordos de bastidores. A transparência na justificação de cada nome é um antídoto contra a percepção de partidarismo. Não se trata de cercear a prerrogativa do vereador, mas de exigir que ela seja exercida com a sobriedade e a integridade que um ato de reconhecimento público tão elevado demanda.

A honra cívica é um testemunho da alma da cidade, uma memória viva do que de melhor um indivíduo pode oferecer. Quando traficada, ela não glorifica; ela lança uma sombra sobre a dignidade do próprio Poder Legislativo e sobre a pureza do ideal de serviço público.

Fonte original: Jornal Diário do Grande ABC

⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.

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