O Oriente Médio, para além de ser um palco de tensões incessantes, configura-se como uma intrincada tapeçaria, urdida com fios de história, fé e interesses múltiplos. A ideia de que essa vasta e antiga trama possa ser desfeita e redesenhada ao bel-prazer de um único artífice político é, na melhor das hipóteses, uma visão simplista; na pior, uma miopia perigosa que alimenta a desinformação e a fatalidade.
O ex-primeiro-ministro do Catar, Sheikh Hamad bin Jassim Al Thani, ao apontar Benjamin Netanyahu como o arquiteto de uma “grande reestruturação” regional, movida pela guerra contra o Irã e catalisada pelos eventos em Gaza, capta uma parte da ansiedade que hoje domina a região. É inegável o custo humano devastador em Gaza, o risco latente de escalada que pende sobre o Estreito de Ormuz, e a percepção de uma reconfiguração geopolítica em curso. Contudo, reduzir essa complexidade a uma estratégia unilateral de um líder, por mais astuto que ele seja, é negligenciar a veracidade dos fatos em favor de uma narrativa conveniente.
A geopolítica não é um jogo de xadrez onde um único jogador dita todos os movimentos e prevê todas as reações. O melhor argumento contrário a essa tese de “redesenho” reside precisamente na recusa em atribuir a um só homem uma agência quase demiúrgica sobre um sistema tão complexo e multifacetado. O cenário é moldado por décadas de tensões, pela inércia dos impérios, pelos rescaldos de primaveras outonais e pela busca de segurança e influência por inúmeros atores: Irã, Arábia Saudita, Turquia, Egito, Rússia, China, e mesmo grupos não-estatais como Hamas e Hezbollah, cada qual com suas próprias agendas e capacidades de ação. A visão de Sheikh Hamad, embora valiosa como perspectiva do Catar, reflete interesses específicos e não pode ser tomada como a lente única e objetiva da realidade.
Na Doutrina Social da Igreja, o princípio do “povo versus massa”, tão caro a Pio XII, alerta para a instrumentalização das multidões e a manipulação da consciência coletiva. Quando a narrativa simplifica a realidade a ponto de reduzir povos inteiros a meros instrumentos de uma estratégia maior, desvirtua-se a ordem moral pública e a dignidade humana. O sofrimento em Gaza é real, mas sua etiologia e suas consequências não podem ser sumariamente empacotadas como mero subproduto de um plano mestre israelense, por mais que as ações de Tel Aviv tenham impacto direto e trágico. A responsabilidade reside em múltiplos elos de uma cadeia complexa, não em um único elo que, por conveniência, se elege como a raiz de todos os males.
A própria recusa da Arábia Saudita em normalizar relações com Israel sem um roteiro claro para um Estado palestino independente é uma evidência contundente dos limites de qualquer “redesenho” unilateral. Tal fato demonstra que a pretensão de impor uma nova ordem sem o consentimento e a agência dos demais atores regionais esbarra na dura realidade dos interesses soberanos e das justas reivindicações. A humildade intelectual exige que se reconheça a densidade do real, a resistência das culturas e a autonomia legítima dos povos, em vez de se render à soberba ideológica que busca uma causalidade simplista para fenômenos intrinsecamente complexos.
A tensão no Oriente Médio é uma ferida aberta na consciência global, e os povos da região clamam por paz e por justiça. Contudo, a solução para a instabilidade não reside em narrativas que culpam um único ator por um caleidoscópio de interesses conflitantes. A verdadeira veracidade exige discernimento, e a busca por um futuro menos belicoso pressupõe a coragem de confrontar a complexidade dos eventos, de reconhecer a agência de múltiplos atores e de resistir à tentação de explicações fáceis que, no fundo, apenas perpetuam a ilusão de controle sobre o incontrolável. A paz não se constrói sobre miragens estratégicas, mas sobre a luz da verdade e o respeito mútuo.
Fonte original: Brasil 247
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.