As palavras da paz, quando escritas sob a sombra da guerra, raramente encontram eco no terreno árido da desconfiança. A mais recente proposta iraniana, entregue por mediadores, e a pronta rejeição de Washington, não inauguram um caminho, mas assinalam mais um ponto na longa e sangrenta crônica da confrontação no Oriente Médio. O presidente Donald Trump, com sua habitual franqueza digital, classificou o documento iraniano de “totalmente inaceitável”, sem contudo delinear os pontos específicos da discórdia, uma opacidade que obscurece mais do que esclarece os rumos diplomáticos.
A contraproposta de Teerã, veiculada por canais diplomáticos e agências iranianas, é um mosaico de exigências que refletem, por um lado, uma legítima busca por segurança econômica e reconhecimento soberano. O Irã demanda o fim imediato do cerco econômico, a liberdade para exportar seu petróleo e o levantamento das sanções norte-americanas, pleitos que tocam a ferida de uma população penalizada. A inclusão da soberania sobre o Estreito de Ormuz e a compensação integral pelos danos de guerra, entretanto, configura um conjunto de condições maximalistas, acompanhadas por uma retórica militarista que anuncia prontidão para “enfrentar qualquer ação dos ‘inimigos americano-sionistas'”. Essa duplicidade, entre o convite ao diálogo e a ameaça de retaliação, lança uma sombra sobre a real intenção de paz.
Do outro lado da mesa, ou melhor, da trincheira retórica, a rejeição sumária de Trump, ainda que articulada após consulta ao primeiro-ministro israelense Benjamin Netaniahu, carece da veracidade que se espera de um ator global na busca por uma solução duradoura. Desqualificar integralmente uma proposta sem especificar as objeções é um ato que impede o escrutínio e a compreensão, reforçando a percepção de uma intransigência pré-concebida. Se é certo que o Irã negocia com as cartas mais altas, é igualmente questionável a ausência de um engajamento substantivo por parte de quem detém a maior alavancagem econômica e militar.
Para um Polemista Católico, a questão central reside na justiça da ordem que se pretende estabelecer. Não se trata de uma paz a qualquer custo, mas de uma paz que seja fruto da retidão e da equidade. As sanções econômicas, quando atingem desproporcionalmente a população civil, clamam por alívio sob a ótica da justiça social, conforme ensinado por Pio XI. Contudo, a reivindicação de soberania sobre o Estreito de Ormuz, uma passagem de vital interesse global, deve ser temperada pela visão de Leão XIII sobre a propriedade com função social, reconhecendo que bens de uso universal não podem ser instrumentalizados por interesses puramente nacionais, sem consideração pelo bem da cidade global.
A coexistência de uma proposta de paz com declarações de guerra, como a menção aos “40 dias de guerra contra a República Islâmica” pelo Aiatolá Khamenei, revela uma profunda desordem moral. A diplomacia exige clareza e honestidade nas intenções. Quando a retórica da negociação se mistura ao som dos tambores de guerra, a mensagem que se envia é de um jogo de poder, onde a paz é apenas uma tática, não um fim em si. Pio XII, em sua crítica à massificação e defesa de uma ordem moral pública, advertiria sobre os perigos de uma comunicação irresponsável, que confunde os povos e impede o discernimento.
Uma paz duradoura exige mais do que a simples interrupção das hostilidades; exige um compromisso verdadeiro com a justiça e a veracidade. A dignidade de todas as nações impõe que as negociações não sejam um palco para imposições unilaterais ou para a exacerbação de ressentimentos, mas um espaço para o reconhecimento recíproco de direitos e deveres. A ausência de especificidade na rejeição de um lado e o maximalismo combativo do outro não preparam o terreno para a semeadura da concórdia, mas adubam a terra para a continuidade do conflito.
A verdadeira paz não se impõe pelo punho, mas se edifica pela balança da justiça e pela luz da verdade.
Fonte original: Diário Causa Operária
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.