O Oriente Médio, com sua história milenar de fés e conflitos, parece condenado a uma primavera incessante de falsas pazes, onde a fumaça das explosões logo dissipa a ilusão de trégua. Os ataques noturnos dos Estados Unidos no sul do Irã, as acusações iranianas de violação de cessar-fogo e a ofensiva de Israel no Líbano que ceifou a vida de 31 pessoas são mais do que meros fatos. São a prova cabal de que a mesa das negociações, por mais solenes que sejam seus termos, foi manchada novamente com o sangue de inocentes, e a ordem mínima para a vida em sociedade desabou.
É um erro crasso e intelectualmente desonesto descrever esta catástrofe como uma “escalada de tensões e ataques mútuos” equilibrada. A balança da força militar e diplomática pende desproporcionalmente, e a cronologia dos fatos, para quem tem olhos de ver, aponta para ações ofensivas que precederam as retaliações. Acordos de cessar-fogo, como o de 8 de abril, tornam-se farrapos de papel quando uma das partes, por conveniência estratégica ou retaliação, decide desrespeitá-los com bombardeios e expansão territorial, como a ofensiva israelense no Líbano ou os ataques americanos após o prometido fim das hostilidades. A justiça exige que se nomeie a agressão por aquilo que ela é, não que se simule uma simetria onde só há dor imposta.
A maior tragédia, contudo, é a instrumentalização do povo. Pio XII, em sua lucidez profética, alertava sobre o perigo de reduzir o povo a uma massa indistinta, manipulável e descartável. As 31 vidas perdidas no Líbano não são um número em estatísticas, mas pessoas com rostos, famílias e histórias, cujas mortes clamam por um juízo reto. A interrupção do acesso à internet no Irã, o “apagão nacional mais longo da história”, revela uma intenção de controlar a informação, de cegar a população para a realidade e de sufocar qualquer voz que possa denunciar as atrocidades. É um ataque à liberdade e à caridade, que exige atenção e cuidado para com o vulnerável, para com aqueles que são esmagados sob as rodas de um conflito que não escolheram.
Os esforços diplomáticos, como a visita dos negociadores iranianos ao Catar, ou as conversas entre os presidentes Pezeshkian e Al Thani, tornam-se farsa se as ações militares em campo continuam a minar qualquer avanço. Não há acordo de paz possível se o compromisso com a verdade e com a vida humana é frágil como vidro. A fragilidade das tréguas anteriores e a repetição contínua das violações demonstram que a vontade política, mais do que a retórica, é a moeda mais escassa. A quem interessa perpetuar esta dinâmica? Quem colhe os frutos podres dessa desordem enquanto o povo colhe o luto?
A estabilidade no Estreito de Ormuz, vital para o fluxo de energia que move o mundo, também é refém dessa irresponsabilidade. A explosão que danificou um petroleiro na costa de Omã, seja qual for sua autoria, é um sinal de alerta que a economia global não pode ignorar. A verdade sobre tais incidentes, longe de ser um mero detalhe, é a fundação para qualquer resposta legítima, e a obscuridade que os cerca alimenta a desconfiança e a escalada.
A paz não é a ausência de guerra a qualquer custo, nem tampouco uma folha de parreira para encobrir a iniquidade. É a tranquilidade da ordem, um desígnio que brota da justiça e é regado pela caridade, que nos impõe o dever de proteger o inocente e de buscar a verdade. Enquanto a ambição e a mentira dominarem os corações e as mesas de negociação, o Oriente Médio continuará a ser um campo de prova da falência moral da humanidade, onde cada nova aurora é apenas o prelúdio de mais um dia de chumbo.
Fonte original: Diario de Pernambuco
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.
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