A mesa das negociações de paz, que por vocação deveria ser o altar da verdade e da justiça entre os povos, converteu-se em palco de um jogo de máscaras. A guerra, iniciada por Israel e Estados Unidos contra o Irã em fevereiro, teve seus objetivos declarados em alto e bom som: frear o programa nuclear, desmantelar a rede de influência regional de Teerã, e até mesmo precipitar uma mudança de regime. Quase um ano e meio depois, e após cessar-fôgos frágeis e intermitentes ataques, o rascunho de acordo que emerge dos bastidores não apenas falha em cumprir as metas anunciadas, como parece abençoar, sob certos aspectos, as aspirações do próprio regime que se pretendia conter. A frase cínica de Roy Cohn, disseminada pelo porta-voz iraniano, de que “não importa o que aconteça, você sempre declara vitória e nunca admite derrota”, ecoa como um epitáfio para a integridade do discurso público na política internacional.
Os fatos são teimosos. O Irã, que possuía 440 quilos de urânio enriquecido a 60%, mantém a substância em solo próprio, recusando-se a transferi-la. Seu programa de mísseis e drones, a espinha dorsal de sua projeção de poder, permanece intocado no texto negociado. As relações com seus aliados regionais, como o Hezbollah no Líbano e os houthis no Iêmen, não sofrem qualquer restrição. Pior, o acordo prevê a liberação da passagem marítima no estratégico Estreito de Hormuz, mas não sem que o Irã indique a possibilidade de cobrar “pedágios” ou “taxas ambientais”, transformando uma concessão em nova alavanca de poder e receita, sob o rótulo da normalidade comercial. A remoção das sanções e o descongelamento de US$ 24 bilhões em ativos completam um quadro em que as concessões parecem fluir de uma só direção.
É claro que a diplomacia, por sua natureza, é a arte do possível, do compromisso, da calibragem de expectativas. E há, sem dúvida, um argumento pragmático a ser feito: talvez os objetivos iniciais fossem maximalistas demais, postos como barganha para uma negociação que agora busca uma desescalada mais realista. Talvez o custo de uma guerra total fosse insuportável, e o acordo, ainda que imperfeito, seja um meio de gerir um risco iminente, “comprando tempo” ou “estabilizando” uma região à beira do abismo. Evitar uma guerra de escala maior e um programa nuclear iraniano completamente descontrolado é um bem em si, e a paz, ainda que precária, é sempre preferível à carnificina. Essa perspectiva de gestão de riscos, de pragmatismo sobre o idealismo, não pode ser sumariamente descartada.
Mas a veracidade não é um adorno; é um pilar da justiça e da ordem social, tanto entre indivíduos quanto entre nações. Quando as declarações públicas de vitória se descolam da realidade dos fatos, quando os objetivos anunciados são silenciosamente abandonados em troca de uma trégua onerosa, não é a prudência que triunfa, mas um cinismo que envenena as relações internacionais. O que se edifica, então, não é uma paz duradoura, mas uma suspensão temporária das hostilidades, assentada sobre areia movediça. A citação de Roy Cohn, abraçada pelo porta-voz iraniano, não é mera bravata; é a confissão de uma estratégia que, ao desprezar a verdade, enfraquece a própria possibilidade de acordos futuros baseados na confiança mútua.
A Igreja, através de Pio XII, já alertava para os perigos de uma “ordem” pública desprovida de alicerces morais. Uma paz que emerge de uma negociação onde os interesses são obscurecidos pela retórica vazia, e onde a integridade das palavras é sacrificada em nome de um arranjo conveniente, é uma paz sem alma. Ela não fortalece a liberdade ordenada de Leão XIII, mas cede terreno à estatolatria denunciada por Pio XI, que coloca a razão de Estado acima de qualquer preceito moral. Os aliados de EUA e Israel na região, por exemplo, sentem na pele a insegurança de um Irã que, longe de ser contido, parece ter suas prerrogativas legitimadas por um acordo que sequer menciona suas milícias.
O risco é que essa “vitória por decreto” do Irã, percebida assim pelas facções linha-dura de Teerã, fortaleça regimes autoritários e encoraje a tática da intimidação. Um governo ainda mais inflexível no Irã, uma corrida armamentista na região, e a proliferação de armas não convencionais tornam-se cenários mais prováveis. A magnanimidade na política internacional não reside em proclamar sucesso onde houve recuo, mas em buscar, com veracidade e coragem, uma paz que seja verdadeiramente justa e sustentável, mesmo que isso implique custos maiores no curto prazo. Uma paz comprada com a moeda da dissimulação não honra os vivos e nem serve de legado para os que virão.
A verdadeira paz não se constrói sobre as ruínas da honestidade. Ela exige a coragem de nomear as coisas pelo que são, de assumir os recuos e de edificar a confiança sobre alicerces de verdade, mesmo que isso exponha vulnerabilidades. A ausência de guerra não é sinônimo de paz, se a desordem moral pública se torna a regra do jogo.
Fonte original: Folha de S.Paulo
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.
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