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Moro, Justiça e 8 de Janeiro: A Balança da Coerência

Sergio Moro promete combater corrupção no Paraná, mas sua postura sobre o 8 de janeiro expõe incoerências. Analisamos a justiça seletiva e a ética política na pré-campanha.

🟢 Análise

Diante do turbilhão de promessas e denúncias que embala a pré-campanha de Sergio Moro ao governo do Paraná, um ponto emerge com clareza cristalina: o clamor por justiça e segurança é legítimo, ecoando nas ruas do estado e nas aspirações de um povo que anseia por ordem. Sua experiência como juiz da Lava Jato e ex-ministro da Justiça confere autoridade à sua plataforma de combate à corrupção e à criminalidade, propondo um presídio de segurança máxima e a valorização das forças policiais. A indignação com a má infraestrutura, com os desvios de recursos e com um judiciário por vezes politizado é sentida por muitos, e a demanda por um governo “técnico” e eficiente, livre de aparelhamentos, é um sinal de maturidade cívica.

Contudo, a mesma balança que se propõe a pesar os crimes dos bandidos comuns e dos corruptos parece recalibrar seu fiel quando se trata de certas conveniências políticas. A reaproximação com a família Bolsonaro, o apoio à pré-candidatura de Flávio Bolsonaro à Presidência, e, sobretudo, a defesa da anistia ou redução de penas para os condenados do 8 de janeiro, sob o argumento de que foram tratados com “exagero” ou eram “massa de manobra”, introduzem uma dissonância incômoda. A justiça, para ser verdadeira, não pode ser seletiva; ela deve dar a cada um o que lhe é devido, sem considerar a filiação partidária ou a oportunidade eleitoral. A rigor, a lei é igual para todos, e os ataques às instituições democráticas, ainda que por parte de “pessoas simples”, não podem ser minimizados sem corroer o próprio alicerce da ordem social.

O princípio tomista da justiça é que ela consiste em uma inclinação constante e perpétua da vontade a atribuir a cada um o que lhe é de direito. Se houve desproporção nas penas ou falhas processuais no 8 de janeiro, a via correta é a revisão pelos mecanismos legais, e não a anistia política que desculpa, por conveniência, a violação da ordem. O bem comum não se constrói com a instrumentalização da lei. Classificar todos os envolvidos no 8 de janeiro como “massa de manobra” é um reducionismo perigoso, pois obscurece a intencionalidade de alguns e a gravidade simbólica do ataque às sedes dos Poderes. Há uma diferença fundamental entre protesto legítimo e a tentativa de subverter a ordem republicana, e a distinção não pode ser borrada para fins eleitorais.

Quando a retórica se torna uma arma de deslegitimação generalizada, afirmando que o Brasil se “transformou numa Sodoma e Gomorra piorada” ou que o Supremo Tribunal Federal “está na berlinda” com “excesso de decisões”, a polarização se aprofunda e o respeito à autoridade legítima, essencial para a coesão social, é minado. É certo que o judiciário, como qualquer instituição humana, está sujeito a falhas e pode exceder seus limites. Mas a correção desses desvios exige prudência e vias institucionais, não uma campanha de erosão da confiança pública que pode ter consequências imprevisíveis para a estabilidade do Estado. A “realeza social de Cristo” (Pio XI) é um lembrete de que a ordem temporal deve espelhar uma ordem moral superior, onde a verdade e a integridade são inegociáveis.

A promessa de um “governo técnico” no Paraná, com foco em entregas e na resolução de problemas concretos como a energia da Copel ou a qualidade das estradas, é bem-vinda e necessária. No entanto, a veracidade de tal projeto depende da coerência dos princípios que o animam. Não se pode criticar a politização da justiça num momento e praticá-la em outro. Um governo não se faz apenas de eficiência gerencial, mas de uma ética sólida que não transija com a verdade em nome do poder. A defesa da casa, da família e do pequeno, um ideal chestertoniano, só é robusta quando o teto da justiça cobre a todos, sem goteiras de conveniência.

A construção de uma “fortaleza” no Paraná contra as “loucuras de Brasília” é uma imagem poderosa, mas a solidez dessa fortaleza dependerá de seus fundamentos. Se seus pilares forem erguidos sobre uma justiça flexível, que cede a ventos políticos, e sobre uma veracidade que transige com a narrativa conveniente, a fortaleza corre o risco de desmoronar por dentro. O povo paranaense merece um líder que inspire confiança não apenas pela capacidade de combate, mas pela inabalável integridade de seus princípios.

A história nos lembra que a verdadeira força de um estadista não reside em abater adversários a qualquer custo, mas em edificar uma ordem justa e transparente. A tarefa de governar não é meramente a de um estrategista que calcula cada movimento para maximizar o ganho eleitoral, mas a de um zelador da verdade e da justiça para o bem da cidade.

Fonte original: Bem Paraná

⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.

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