O tabuleiro da política brasileira, sempre em reconfiguração dramática, acaba de testemunhar um lance que, para alguns, soa como um golpe duríssimo, um ataque direto e orquestrado contra a candidatura presidencial futura. A recente rejeição da indicação de Jorge Messias ao Supremo Tribunal Federal, sob o manto de intrigas envolvendo o “caso Banco Master”, pressões do Centrão, figuras como Alcolumbre, Pacheco e até um suposto realinhamento de Alexandre de Moraes, é lida por certos analistas como o estopim de uma “ruptura geral”. A imagem pintada é a de um governo Lula isolado, traído por aliados burgueses, e forçado a uma eleição “contra toda a burguesia”, nos moldes de 1989. Contudo, entre o clamor da derrota e o diagnóstico radical, o discernimento cristão nos convida a buscar a substância da justiça e a clareza da verdade.
Não se pode negar a seriedade de uma derrota parlamentar na indicação para a mais alta corte do país. Ela escancara as fragilidades das bases de apoio, a influência de interesses particulares, a dança ambígua entre o Executivo e os demais poderes, e a intrincada teia de ambições eleitorais que pavimentam o caminho para 2026. É legítimo preocupar-se com a permeabilidade das decisões políticas a pressões econômicas específicas, com a percepção de uma judicatura excessivamente envolvida em barganhas de bastidores, e com a instabilidade crônica das alianças no presidencialismo de coalizão. Estes são sintomas reais de uma política que nem sempre se ordena ao bem comum, mas se enreda em interesses difusos e cálculos táticos.
Todavia, o diagnóstico que reduz a complexa vida política a uma conspiração monolítica da “burguesia” contra um “projeto” ideológico específico peca pela simplificação excessiva e pela honestidade intelectual. A vida pública, tal como ensina a Doutrina Social da Igreja, é um campo de múltiplas forças, onde a articulação de interesses, a busca por protagonismo e as inevitáveis desavenças táticas são a norma, não a exceção. A política, em sua essência, não é apenas o embate entre blocos antagônicos, mas a arte, muitas vezes dolorosa, de compor ordens precárias num cenário de liberdade. Reduzir cada revés a um “duríssimo golpe” orquestrado é cair na tentação de uma narrativa maniqueísta, que obscurece a realidade multifacetada e impede a verdadeira reflexão.
O risco de tais interpretações não reside apenas no falseamento dos fatos, mas na erosão da própria ideia de povo e instituições. Pio XII, ao distinguir o “povo” da “massa”, alertava para o perigo de uma mentalidade que deslegitima as estruturas democráticas, transformando o “Congresso”, por exemplo, em um monstro amorfo e “antidemocrático”, em vez de identificar responsabilidades em partidos e personalidades concretas. A crítica generalizada, embora carregada de um certo fervor, esvazia a justiça e a responsabilidade individual, e abre caminho para soluções que, sob o pretexto de combater uma suposta “estatolatria”, podem minar a subsidiariedade e a participação dos corpos intermediários. A verdadeira realeza social de Cristo se manifesta na ordenação justa e prudente das relações humanas, não na destruição cega de toda forma institucional imperfeita.
Essa miopia ideológica estende-se também à arena internacional. Apresentar a Rússia de Putin como um baluarte “anti-imperialista”, que “ajuda governos nacionalistas” de forma irrestrita, ignorando as contradições do próprio regime e a injustiça da agressão na Ucrânia, é uma deturpação grave da verdade. A Doutrina Católica, em sua busca pela paz, não cede a justificativas que disfarçam a agressão com retóricas de libertação. A justiça entre as nações exige a defesa dos povos agredidos e a condenação de ações que violam a soberania e a integridade territorial. Uma visão integral da política não pode celebrar um opressor com base em um critério utilitário de antagonismo geopolítico.
Chesterton, com sua sanidade peculiar, sempre nos lembrava da loucura lógica das ideologias que, de tão focadas em seus próprios esquemas, perdem o contato com a realidade palpável. A política é feita de pessoas de carne e osso, com ambições e temores, e não de autômatos movidos por uma única vontade “burguesa”. A derrota de uma indicação é, sim, uma derrota, um fato concreto que expõe os limites do poder do Executivo e a força do Legislativo, mas não a sentença final de uma conspiração universal. As alianças se fazem e desfazem; os acordos se rompem e se recompõem, como demonstrou a posterior derrubada do veto ao PL da Dosimetria.
A verdadeira tarefa, para a sociedade e seus líderes, não é se render ao desespero de uma “ruptura geral” ou ao messianismo de uma “eleição contra tudo”, mas buscar a justiça nas articulações e a veracidade no discurso público. A crise política não é um convite à anarquia, mas uma chamada à reta razão e à responsabilidade moral de edificar uma ordem que, ainda que imperfeita, se aproxime do bem comum.
O caminho para uma república mais sólida não é o da negação ideológica, mas o da construção paciente e constante de pontes onde a verdade e a justiça possam caminhar lado a lado, erguendo-se sobre os escombros das conveniências e das simplificações.
Fonte original: Diário Causa Operária
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.