A memória dos massacres não é uma abstração histórica, mas uma cicatriz no corpo da humanidade. É com este peso que se observam os registros compilados pelo Diário Causa Operária (DCO), que detalham uma série de atrocidades imputadas a Israel e seus aliados. Relatos como os de Kafr Qasim (1956), Tel al-Zaatar (1976), Qibya (1953), Saasa (1948), Ein al-Zeitun (1948) e al-Dawayima (1948) pintam um quadro sombrio de violência contra civis, incluindo mulheres e crianças. Ordens explícitas para “não haver prisões nem sentimentalismo”, o extermínio indiscriminado de trabalhadores em toque de recolher, a explosão de casas com moradores dentro e testemunhos de execuções sumárias, estupros e espancamentos com baionetas constituem afrontas gravíssimas à ordem moral e à dignidade intrínseca de cada pessoa.
A percepção de impunidade que frequentemente seguiu a tais eventos — com sentenças reduzidas e indultos presidenciais, e até a sugestão de que julgamentos foram “encenações” para proteger figuras governamentais — corrói a fé na justiça e no Estado de Direito. Quando a responsabilidade por crimes tão hediondos é diluída ou escamoteada, a própria ordem moral pública, para usar uma expressão do Papa Pio XII, entra em colapso. O horror de tratar o povo como uma massa a ser manipulada ou eliminada, em vez de uma comunidade de indivíduos com direitos inalienáveis, é uma degeneração que nenhuma causa ou justificativa política pode legitimar.
Contudo, a busca pela verdade exige que se evite a armadilha de um binarismo moral simplificado. A fonte que nos traz estes fatos, assumidamente militante, emoldura a narrativa com uma linguagem carregada e ideológica, rotulando “Israel” de “Estado sionista/nazista” e o sionismo de “fascista/racista”. Essa lente, que intenciona denunciar, paradoxalmente, obscurece a complexidade do real. É uma das formas da loucura lógica da ideologia, que, ao reduzir o conflito a uma batalha entre o bem absoluto de um lado e o mal absoluto do outro, impede a genuína compreensão histórica e, mais ainda, a possibilidade de paz.
A história da região é tecida por múltiplas agências e violências, por vezes recíprocas. Ignorar que muitos desses eventos ocorreram em contextos de guerras civis, conflitos interestatais ou como retaliações a ataques que também ceifaram vidas civis – como o massacre de Qibya, que seguiu um ataque em Yehud – é distorcer o passado. A violência inter-facções, como os ataques da OLP em Damour ou o cerco sírio a Tel al-Zaatar, embora não diretamente atribuíveis a Israel, demonstram a trágica multiplicidade de atores e de sofrimentos. A dignidade da pessoa humana não admite fronteiras nem bandeiras, e o sofrimento infligido por qualquer parte clama por caridade e reconhecimento.
A caridade, neste cenário de ruínas e ressentimentos, não é sentimentalismo, mas a firme determinação de reconhecer a humanidade em cada face, mesmo na do adversário. A humildade, por sua vez, exige a denúncia da soberba ideológica que pretende ter todas as respostas e que se recusa a confrontar as próprias sombras. Não é possível construir a paz sobre o pântano da mentira ou da seletividade histórica, pois a verdade, ainda que dolorosa, é o único alicerce duradouro. Condenar os massacres de civis, de qualquer lado, é um imperativo moral que transcende as disputas políticas e as agendas ideológicas.
A “resistência armada” defendida pela fonte, incluindo a Operação Dilúvio Al-Aqsa, deve ser avaliada à luz dos mesmos princípios morais. O direito à legítima defesa não confere carta branca para a desconsideração da vida de não combatentes. A verdadeira justiça e a possibilidade de um futuro comum para todos os povos daquela terra não nascerão da exacerbação da culpa unilateral, mas de uma reta ordenação da caridade e da humildade para com todos os que ali habitam, reconhecendo que a violência gera mais violência e que a desumanização do outro é um caminho sem volta para a barbárie.
Que o registro sombrio desses eventos nos lembre que a verdadeira vitória não reside em impor uma narrativa única, mas em construir, com humildade e caridade, uma paz duradoura para o povo, não para a massa, em uma terra que clama por redenção.
Fonte original: Diário Causa Operária
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.