A política internacional, muitas vezes, assemelha-se a um balé complexo, onde cada passo é calculado, cada sorriso, ensaiado. Mas quando a cortina se fecha e o público fica à espreita, o espetáculo da “produtividade” diplomática pode esconder uma dança mais perigosa, aquela em que os interesses legítimos de uma nação são postos à prova, não raro, em desvantagem. O encontro entre o presidente Lula e Donald Trump, na fria formalidade da Casa Branca, foi classificado por ambos como “muito produtivo”, selado por um aperto de mãos e a promessa de futuros acordos sobre “temas considerados tabus”. Ora, a cordialidade é um lubrificante essencial na engrenagem das relações entre Estados, mas jamais pode servir de véu para a opacidade que corrói a confiança e compromete a soberania.
Os fatos atestam uma reunião de mais de três horas, a portas fechadas, com uma coletiva de imprensa conjunta misteriosamente cancelada. O que se seguiu foram declarações separadas, onde o presidente brasileiro enfatizou discussões sobre “terras raras” e o “combate ao crime organizado”, ao mesmo tempo em que reiterava sua oposição à ação militar dos EUA no Irã, um ponto de notória divergência. O presidente Trump, por sua vez, divulgou sua avaliação via rede social, focando em “comércio e, especificamente, tarifas”. Mas a imagem de harmonia e a retórica de “duas grandes democracias” devem ser examinadas com a lupa da doutrina, que não se contenta com as aparências, mas busca a substância da justiça.
É inegável que o diálogo de alto nível com uma superpotência é um imperativo pragmático. A manutenção de canais diplomáticos, independentemente das inclinações ideológicas dos líderes, é uma forma de evitar o isolamento e buscar oportunidades. Há, sim, um interesse legítimo em atrair investimentos e tecnologia para a exploração de minerais estratégicos, como o cobre, níquel, nióbio e lítio, que abundam em solo brasileiro. Lula, inclusive, já havia assinado acordos minerais com a Alemanha e afirmou que o Brasil não vetará nem estabelecerá preferências. Mas é precisamente aqui que reside a tensão fundamental: o “otimismo” do Presidente Lula deve encontrar lastro em termos concretos que assegurem a primazia do bem nacional.
A assimetria de poder entre os EUA e o Brasil não é um mero detalhe, mas uma realidade geopolítica e econômica que molda cada negociação. Incidentes recentes, como a expulsão de um delegado da Polícia Federal brasileira seguida da cassação de credenciais de um agente americano no Brasil, ou a exclusão do país da iniciativa “Escudo para as Américas”, sublinham uma dinâmica onde os interesses de segurança americanos, muitas vezes, ditam a pauta e as condições. Quando “terras raras” são o foco, a Doutrina Social da Igreja, desde Leão XIII, nos lembra da propriedade com função social: os recursos naturais de uma nação são dons de Deus que devem servir ao bem comum de todo o povo, e não serem meras moedas de troca para a satisfação de apetites externos, por mais legítimos que sejam. A exploração deve ocorrer sob termos que garantam o máximo benefício econômico, o controle soberano e a proteção ambiental para o Brasil, não abrindo precedentes para a exploração predatória ou a submissão disfarçada.
A ausência de transparência na Casa Branca, com negociações a portas fechadas e coletiva cancelada, é um flanco aberto à suspeita e uma falha contra a veracidade devida ao povo. A justiça não se coaduna com acordos obscuros, especialmente quando bens tão vitais estão em jogo. O povo, alertava Pio XII, não é uma massa passiva a ser manipulada por narrativas prontas. Ele é um corpo vivo de cidadãos que têm o direito de escrutinar e entender os termos pelos quais seu futuro e seus recursos são negociados. A menção de Lula de que não quis tocar no Pix porque os americanos não o fizeram, ou a sua decisão de não “brigar” por causa da visão de Trump sobre a guerra no Irã, sugerem uma cautela que, se por um lado pode ser vista como prudência diplomática, por outro lado, pode mascarar uma postura mais reativa do que proativa na defesa intransigente dos interesses nacionais.
A diplomacia não pode ser um jogo de cartas marcadas nem um mero aceno de cabeça. Ela exige a fortaleza para defender os princípios, a veracidade para comunicar os fatos e a justiça para garantir que os benefícios e encargos sejam equitativamente distribuídos. A “produtividade” de um encontro não se mede apenas pela ausência de atritos ou pela cordialidade das fotografias, mas pela capacidade de um Estado de assegurar que sua soberania e seus interesses a longo prazo sejam inegociavelmente preservados. A proximidade de ciclos eleitorais em ambos os países adensa a névoa da conveniência política sobre o tabuleiro. A diplomacia, quando desprovida da luz da verdade e da bússola da justiça, arrisca-se a ser um palco de sombras, onde a performance do acordo encobre a erosão silenciosa do direito e da soberania que é devida ao povo.
Fonte original: O Povo
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.
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