O paradoxo que se desenha sobre a paisagem iraquiana não é meramente um conflito geopolítico entre potências, mas uma tragédia intrínseca à própria ideia de Estado. O governo iraquiano, sob evidente pressão dos Estados Unidos, mobiliza esforços para desarmar facções das Forças de Mobilização Popular (FMP), um comitê de três dirigentes a marchar para uma conclusão que se adivinha imposta. Mas, para além da dança das influências externas, emerge a questão mais fundamental: pode um Estado ser verdadeiramente soberano quando sua autoridade máxima é desafiada por braços armados que se recusam a depor as armas e exibem lealdades divididas?
As Forças de Mobilização Popular, criadas em 2014 para combater o Estado Islâmico com apoio iraniano, foram oficialmente integradas às Forças Armadas iraquianas. No entanto, a recusa pública de facções como Cataebe Hesbolá em entregar seus arsenais, e a declaração de estarem “preparadas para pagar qualquer preço”, desnudam uma fratura incurável na soberania. É como se a casa tivesse vários senhores, cada um com sua própria chave e suas próprias regras para o arsenal. A pressão americana, com sanções e telefonemas do Secretário da Guerra Pete Hegseth, é um fator inegável na equação, um lembrete da persistente assimetria de poder na região. Mas seria ingênuo reduzir a crise iraquiana a uma mera imposição externa, ignorando o vácuo de autoridade interna que tais facções representam.
A Doutrina Social da Igreja, ao delinear a natureza do Estado, sempre insistiu na primazia da ordem para o bem comum. Para que a justiça floresça e a vida comunitária possa se desenvolver em paz, é imperativo que o Estado detenha o monopólio legítimo sobre o uso da força. Grupos armados com agendas próprias e autonomia de ação são um veneno lento para a unidade nacional e uma garantia de instabilidade perpétua. O governo iraquiano, por mais fragilizado que seja, tem o dever fundamental de consolidar sua autoridade sobre todas as forças de segurança. A capacidade de um Estado de governar, legislar e proteger seus cidadãos depende dessa precondição irrenunciável.
Não se trata, contudo, de inocentar os que hoje pressionam. A veracidade exige que reconheçamos as sombras do passado. A intervenção norte-americana no Iraque, desde 2003, legou um legado de hipocrisia e de desarticulação. É impossível esquecer que figuras como David Petraeus, que hoje possivelmente visita Bagdá, estiveram envolvidas em 2004 na formação de uma nova polícia iraquiana, cujas brigadas, treinadas por militares como James Steele — associado a esquadrões da morte na América Central —, ficaram conhecidas por sequestros e torturas contra muçulmanos sunitas. A ironia é amarga: a potência que hoje exige o desarmamento de grupos paralelos outrora semeou o caos e a desconfiança que os alimentaram.
Esta complexidade histórica, entretanto, não pode servir de álibi para a disfuncionalidade presente. O povo iraquiano, e não apenas seus dirigentes, é a principal vítima da fragmentação do poder. A existência de múltiplos centros de decisão militar significa que o Iraque corre o risco constante de ser um campo de batalha para conflitos regionais, um corpo dilacerado pelas lutas de seus próprios membros. A chamada “integração” das FMP nas Forças Armadas, se não for acompanhada de uma subordinação real e inquestionável à cadeia de comando do Estado, não passa de uma legitimação para a autonomia de grupos com lealdades divididas, perpetuando a instabilidade e a desconfiança.
O desafio do governo iraquiano não é apenas técnico ou militar; é moral. É um esforço para afirmar a própria existência do Iraque como uma nação, e não como um mero conglomerado de tribos e facções armadas. A autoridade legítima, para ser digna de seu nome, não pode coexistir com milícias que se julgam acima da lei. A verdadeira questão não é se a pressão externa é justa, mas se o Iraque, como Estado, é capaz de cumprir o seu dever primordial de garantir a ordem e a segurança para a vida comum de seu povo.
O comitê iraquiano, por mais que se mova sob o olhar atento de Washington, tem a oportunidade de firmar um princípio basilar: nenhum Estado pode ser livre se não for uno em seu poder coercitivo. A paz duradoura não é edificada sobre as areias movediças de acordos frágeis com senhores da guerra, mas sobre a rocha da autoridade legítima e do monopólio da força, elementos essenciais para que qualquer povo possa construir seu destino.
Fonte original: Diário Causa Operária
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.