As bandeiras, hasteadas com fúria ou com orgulho desafiador, por vezes cegam os olhos para a tempestade que se forma nos mares, e que já sacudiu os alicerces da ordem. O irromper de uma guerra de agressão, o assassinato de uma figura de liderança e a resposta com mais de cem ondas de ataques não são meros lances de um jogo político; são feridas abertas na carne das nações e na dignidade da vida humana. Quando o Irã adverte sobre “novas frentes” e “novas ferramentas e métodos” em caso de reincidência bélica dos Estados Unidos, não se ouve apenas a voz da soberania ultrajada, mas o eco de uma espiral de retaliação que ameaça tragar a todos.
A declaração do brigadeiro-general Mohammad Akraminia, embora firme e carregada da resiliência de um povo sob cerco, desenha um quadro de inabalabilidade que, na prática, raramente se sustenta sem custos dilacerantes. A retórica de “vitória ou martírio” pode galvanizar as fileiras, mas não aplaca a fome, não cura os enfermos nem repõe as perdas de uma população civil sob bloqueio naval e sanções implacáveis. É a esses inocentes, a essa “massa” que Pio XII alertava para não ser confundida com o “povo” — uma comunidade orgânica de laços e direitos —, que a verdade da guerra se impõe com maior peso. O juízo moral deve começar pela consideração da justiça e da caridade para com os mais vulneráveis, e não pela exaltação do embate de vontades.
A alegação de que um cessar-fogo foi utilizado para “ampliar a capacidade de combate” revela uma profunda crise de veracidade no coração da diplomacia. Se a trégua, que por sua natureza exige a suspensão das hostilidades para abrir caminho à negociação, é transmutada em tempo de rearmamento, o próprio conceito de paz é esvaziado. A confiança, que é o cordame invisível que liga as nações, rompe-se, e qualquer esforço futuro para desescalar o conflito será visto sob a lente da mais profunda desconfiança. As ameaças de “dois ou três dias” para uma nova ofensiva americana, em paralelo à manutenção do bloqueio, aprofundam a ferida, transformando oportunidades de paz em táticas de coerção.
Neste cenário de intransigência mútua, a sanidade política se vê desafiada pela lógica da escalada. G.K. Chesterton, com sua argúcia paradoxal, talvez notasse a insensatez de se procurar a paz construindo fortalezas cada vez mais impenetráveis, até que as próprias muralhas se tornem prisões. A dependência exclusiva de uma postura maximalista, seja por parte de Teerã ou de Washington, não resolve a crise, mas a petrifica, enquanto os “termos exigidos pelos EUA” ou os “novos instrumentos militares” iranianos se tornam objetos de um jogo de apostas com vidas humanas.
O papel da justiça, aqui, não se limita a apontar o agressor inicial, mas a iluminar o caminho para uma ordem justa possível. Leão XIII nos recordava que a família é anterior ao Estado, e que a propriedade tem uma função social; por analogia, o sustento e a vida das populações são anteriores às manobras geopolíticas e às sanções que as sufocam. É preciso discernimento para separar o legítimo direito à defesa da soberania do vício ideológico que transforma qualquer recuo tático em rendição desonrosa, e qualquer diálogo em fraqueza.
Os custos de uma guerra prolongada, de um Estreito de Ormuz perpetuamente sob tensão e de uma região em ebulição, são incalculáveis. O desvio dos recursos para a guerra, a interrupção das cadeias de suprimento globais e o sofrimento diário dos homens e mulheres que buscam apenas a estabilidade para prover suas famílias, pesam muito mais na balança moral do que qualquer vantagem tática ou retórica de um lado ou de outro.
A paz duradoura exige mais que um cessar-fogo tático; exige um compromisso de honestidade, a fortaleza de ceder sem capitular e a caridade de reconhecer a dignidade até mesmo do adversário. A verdadeira fortaleza de uma nação não se mede pela rigidez de seus punhos, mas pela capacidade de edificar pontes de paz sobre os escombros da desconfiança.
Fonte original: Diário Causa Operária
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.