O tabuleiro geopolítico é um convite perigoso à ilusão de controle. Quando se tenta mover o rei alheio sob a farsa de uma “libertação”, a estratégia não é apenas questionável, torna-se uma afronta à lógica do poder e da moralidade. Relatos desvelam que, no início da guerra com o Irã, Estados Unidos e Israel nutriram a curiosa intenção de recolocar Mahmoud Ahmadinejad, o ex-presidente iraniano, no comando do país. Uma manobra que revela mais a soberba da engenharia social do que um juízo reto sobre a realidade.
Ahmadinejad, que presidiu o Irã entre 2005 e 2013, não é um desconhecido. Sua retórica de “varrer Israel do mapa”, defesa intransigente do programa nuclear iraniano e a repressão interna violenta marcaram seu governo. Como, então, tal personalidade poderia ser o “líder pragmático” e “alguém de dentro” — nas palavras de Donald Trump — capaz de “assumir o controle” do Irã sob a égide de potências ocidentais? A dissonância é flagrante. O plano de “fuga da prisão”, culminando num ataque israelense à sua casa em Teerã para supostamente libertá-lo da prisão domiciliar, feriu-o e o deixou, ao que parece, desiludido. Desde então, ele sumiu de cena, mas o rastro de suas viagens a países ligados a Israel e elogios a Trump em 2019 sugerem complexa teia de interesses e conveniências pessoais, não de alinhamento doutrinário.
No cerne da questão está a justiça: a legitimidade moral e política de uma potência externa em impor líderes a uma nação soberana. É a violência à autodeterminação de um povo. A suposição de que se pode, de gabinetes distantes, orchestrar o destino de uma nação complexa como o Irã é uma forma de arrogância que viola a humildade necessária diante da realidade histórica e cultural. Agências de inteligência, com sua capacidade, falham em compreender a alma de um povo, confundindo atritos internos com “maleabilidade” para interesses estrangeiros. A assimetria de poder entre os arautos da mudança de regime e a população iraniana é abismal, tornando qualquer “libertação” um mero véu para a instrumentalização política.
A Doutrina Social da Igreja sempre acentuou a diferença entre “povo” e “massa”. O povo é um corpo social vivo, com identidade histórica e cultural, capaz de autodeterminação. A massa, ao contrário, é um aglomerado facilmente manipulável, desprovido de vontade própria e sujeito a ser moldado por conveniências. O plano para Ahmadinejad parece ter enxergado o Irã não como um povo, mas como uma massa a ser reformatada segundo um script estrangeiro. Essa mentalidade de engenharia de regimes é a versão geopolítica da “estatolatria” que Pio XI condenava: a idolatria de um poder estatal externo que julga ter o direito de esmagar ou moldar nações soberanas à sua imagem. Ela desconsidera que a nação, como a família, é uma comunidade natural com direito inalienável à sua própria trajetória, salvo ameaças graves à ordem internacional ou crimes contra a humanidade que justifiquem uma intervenção nos termos da guerra justa.
A crença de que um Ahmadinejad, com passado hostil, se tornaria um líder “maleável” para os interesses ocidentais beira a ingenuidade ou, pior, a autoilusão. Era uma aposta contra seu histórico de nacionalismo feroz e desconfiança de interferências externas. A “libertação” via bombardeio de sua casa seria, para qualquer iraniano, um ato de guerra e humilhação, não um gesto de amizade. Não espanta que o plano israelense de múltiplas fases — incluindo a mobilização dos curdos e o colapso do regime — tenha se concretizado em tão poucos pontos. Qual foi a evidência de inteligência que suportava premissa tão frágil? E qual o custo moral de legitimar figura tão controversa, em vez de apoiar movimentos genuínos por mudança interna, tornando-os ainda mais vulneráveis à acusação de serem “agentes externos”?
O fracasso parcial deste intrincado balé geopolítico sublinha uma verdade perene: a vida de uma nação, com suas complexidades e resistências internas, não é um mero experimento de laboratório. As consequências de tais intervenções são o aprofundamento da instabilidade, a erosão da confiança e o reforço das narrativas autocráticas que demonizam qualquer contato com o Ocidente. Buscar a “maleabilidade” em um inimigo público, sem base firme na realidade política interna ou na lei moral, pavimenta mais escombros do que pontes. A verdadeira paz e uma ordem justa não se edificam sobre artimanhas ou imposição forçada, mas pelo respeito à autodeterminação dos povos e pelo cultivo paciente de comunidades políticas que emergem de sua própria história e aspirações.
A pretensão de moldar nações como se fossem esculturas de barro, mesmo com a melhor das intenções táticas, esquece que elas são corpos vivos, com alma e vontade próprias. E o mestre-construtor da história sabe que as fundações de uma ordem duradoura devem ser assentadas no solo firme da realidade e da reta intenção, não na areia movediça da estratégia ilusória.
Fonte original: Estadão
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.
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