A política internacional, em sua ânsia por desatar nós que parecem insolúveis, por vezes tece fios tão emaranhados que a própria trama se desfaz em farsa. Notícias recentes lançam luz sobre um desses fios, um plano dos Estados Unidos e de Israel para, no calor de um conflito armado com o Irã, não apenas desmantelar o regime teocrático, mas, surpreendentemente, reinstalar Mahmoud Ahmadinejad — um homem que prometeu “varrer Israel do mapa” e que reprimiu impiedosamente a dissidência — como um líder “pragmático”. É a ironia servida em bandeja de prata, um paradoxo que desafia não só a memória, mas a mais elementar distinção entre desejo e realidade.
O roteiro, tal qual revelado, beira o inverossímil: Ahmadinejad, ferido em um ataque israelense a sua própria casa, descrito pelos entusiastas como uma “operação de fuga da prisão” para libertá-lo da prisão domiciliar imposta pelo regime que ele outrora liderou. A ideia era capitalizar sobre seu recente isolamento e suas críticas internas ao aiatolá Khamenei, transformando o ex-presidente em um peão de xadrez para um “governo alternativo”. Mas o que essa manobra revela, para além da complexidade do tabuleiro persa, é uma profunda incompreensão do que significa governar e de como as nações movem seus próprios destinos.
A pretensão de moldar a liderança de uma nação soberana, ainda que sob o manto de uma busca por “pragmatismo”, é um sintoma da soberba que São Tomás de Aquino combateria com a virtude da prudência política. Não se trata de uma engenharia de regime que possa simplesmente trocar as peças de lugar. O histórico de Ahmadinejad, suas declarações incendiárias e seu papel na repressão interna não se apagam por um mero cálculo de oportunidade. Um plano que se baseia em transformar um inimigo declarado em aliado por conveniência, sem uma conversão substancial de propósito, é uma aposta temerária. A Doutrina Social da Igreja, desde Pio XI, adverte contra a tentação da estatolatria, não apenas quando um Estado esmaga sua própria sociedade, mas também quando poderes externos se arvoram no direito de tutelar o destino de outros povos, ignorando sua organicidade interna e a liberdade ordenada que lhes é devida.
A opacidade das fontes — “autoridades americanas”, “oficiais de defesa israelenses” e “colaboradores anônimos” — levanta sérias questões sobre a veracidade da narrativa. A descrição do ataque à casa de Ahmadinejad como uma “fuga” em vez de um fracassado assassinato, e a tardia “revelação” de um plano após seu aparente malogro, sugerem uma conveniência estratégica na forma como a informação é veiculada. A desinformação ou a reinterpretação dos fatos, para justificar falhas ou desviar a atenção de planos mal calculados, corrói a confiança pública e obscurece o juízo reto. A humildade intelectual exige reconhecer os limites da própria capacidade de influenciar realidades complexas e de discernir as reais intenções dos atores envolvidos.
Se o plano inicial israelense “subestimou profundamente a resiliência do Irã” e “superestimou a capacidade dos Estados Unidos e de Israel de impor sua vontade”, como atesta a própria fonte, então estamos diante de um erro de avaliação de proporções estratégicas. Tentar implantar um líder com a bagagem de Ahmadinejad, esperando um “pragmatismo” conveniente, é ignorar a alma de um povo e a complexidade de suas lealdades e aspirações. Um povo não é uma massa inerte a ser moldada por vontades externas; possui sua própria história, sua cultura e seu lento processo de autocompreensão política, mesmo em regimes autocráticos.
A lição, portanto, é menos sobre a figura de Ahmadinejad e mais sobre a ilusão de controle. A paz duradoura no Oriente Médio, ou em qualquer parte do mundo, não brotará da semeadura de desconfiança e da engenharia de líderes improv(á)veis, mas do reconhecimento dos limites da força e da valorização de soluções que respeitem a dignidade dos povos. A ordem justa exige um discernimento político que não se curva ao imediatismo ou à tentação de manipular a realidade para encaixá-la em desenhos estratégicos pré-concebidos, mas que busca a verdade, a estabilidade e o respeito mútuo.
O xadrez geopolítico, afinal, não se joga com marionetes, mas com nações de carne e osso, com sua intrincada rede de interesses e sua irredutível vontade própria. E é nesse palco, e não em quimeras de gabinete, que a verdadeira arte da governança deve se manifestar.
Fonte original: Estadão
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.
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