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Novelinhas IA: A Dieta da Alma e a Massificação Digital

As 'novelinhas de IA' e o 'IA slop' revelam a massificação da cultura digital. Artigo critica a "economia da atenção" que esvazia o sentido e mina a Temperança e Veracidade da alma.

🟢 Análise

A dieta da alma, tão vital quanto a do corpo, é por vezes relegada ao acaso dos algoritmos e ao frenesi da atenção. Nos feeds ininterruptos que hoje ditam o ritmo de nossa percepção do mundo, brotam fenômenos curiosos, como as chamadas “novelinhas das frutas”. Melodramas de menos de um minuto, gerados por inteligência artificial a partir de comandos de usuários, que colocam Moranguete, Abacatudo ou Bananildo em tramas apelativas de busca de emprego, assédio e gravidez indesejada. Esses vídeos, que proliferam em plataformas como TikTok e Instagram, substituindo outros conteúdos e capturando olhares, levantam a questão mais profunda: o que estamos realmente alimentando em nosso espírito coletivo?

Reconhecemos, desde logo, que a crítica a novas formas de expressão cultural pode, por vezes, resvalar no elitismo ou na nostalgia de um passado que não retorna. É legítima a preocupação com o impacto do design algorítmico, com a sustentabilidade de uma economia da atenção que pode esmagar a substância pela viralidade, e com a homogeneização cultural que ferramentas de IA poderiam gerar. Há um espaço para o humor absurdo, para a sátira vernacular, e para a democratização da criação de conteúdo que desafia as convenções. Contudo, a questão aqui não é o formato novo ou o meio tecnológico em si, mas a finalidade e a ordem que regem essa produção.

São Tomás de Aquino ensina que cada coisa busca seu bem próprio, e o bem do homem é a sua perfeição pela razão e pela virtude. A produção de conteúdo, enquanto manifestação da criatividade humana, deveria concorrer para esse fim. Quando a “economia da atenção” se transforma na “economia da indignação”, e quando as narrativas são otimizadas para “espasmos de significado” e apelações gratuitas a fim de garantir visualização, o que se obtém não é cultura, mas “IA slop”—um lixo sintético, como bem pontua a observação da Tese, não por sua forma, mas por sua intenção e seu efeito desordenado. Tal fenômeno ilustra a advertência de Pio XII sobre a distinção entre povo e massa: o povo é um corpo vivo de pessoas que buscam um fim comum e consciente; a massa é uma agregação passiva e manipulável, cujas emoções podem ser excitadas por estímulos superficiais e fugazes. Conteúdo que se destina apenas a gerar engajamento algorítmico reduz o espectador à condição de massa.

A virtude da Temperança é crucial neste cenário. Ela não é a privação, mas a reta medida do desejo, o domínio sobre os apetites. O consumo de conteúdo de curta duração, superficial e emocionalmente apelativo, que impede inclusive que se assista a um vídeo de 20 segundos até o fim, revela uma desordem de apetite. É um frenesi técnico que empobrece a capacidade de concentração, de discernimento e de apreensão de sentidos mais profundos. O que se oferece ao público não é nutrição, mas um estímulo constante que vicia sem saciar, uma “salada de frutas mórbida” que, em vez de formar, deforma.

Ademais, a Veracidade é agredida quando a lógica da “criação coletiva” dissolve a responsabilidade pela busca do sentido, transformando personagens em meros “recipientes de estímulo”. O humor inteligente, à maneira de Chesterton, brota da sanidade que enxerga o paradoxo no real e o celebra, ou o denuncia. Não é o riso fácil ou a indignação fabricada por enredos absurdos que carecem de uma base lógica ou de uma intenção moral. A máquina, neste caso, não serve à inteligência humana, mas a aprisiona na repetição de vícios de atenção, prometendo “complemento de renda” ao fim de cada capítulo, perpetuando o ciclo da manipulação.

A responsabilidade das plataformas e dos criadores não pode ser mitigada pelo argumento da democratização, se o resultado é a massificação e o empobrecimento do espírito. Em vez de edificar o que é bom, belo e verdadeiro – a via pulchritudinis –, esse modelo de produção algorítmica fomenta a “ordem moral pública” que Pio XII tanto defendeu contra a massificação. O que se cultiva na terra da cultura digital é mais do que mero entretenimento; é o terreno onde germinam as ideias, os valores e as disposições que moldam a pessoa humana.

A verdadeira liberdade de expressão não reside em produzir indistintamente o que o algoritmo favorece, mas em criar aquilo que eleva, que desafia à virtude, que nutre a inteligência e o coração. As “novelinhas das frutas” não são apenas um fenômeno estético curioso; são um sintoma alarmante da enfermidade de uma cultura digital que, ao buscar a viralidade a todo custo, esvazia o sentido e apequena o homem. É preciso discernir o alimento do engodo, e cultivar, com laboriosa paciência, um jardim digital que floresça em verdade.

Fonte original: Folha de S.Paulo

⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.

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