No vasto e opaco mar de dados que hoje circunda a vida humana, navegar tornou-se um exercício perene de discernimento. Testemunhamos, ao longo de mais de duas décadas, a gestação e o crescimento de um hábito que se fez cotidiano: o consumo acrítico daquilo que, por sua inconsistência, superficialidade ou falsidade, poderíamos chamar de “informação ruim”. Esse fenômeno, longe de ser anedótico, é impulsionado por algoritmos que prosperam no engajamento, mesmo quando este se alimenta da indignação fácil ou da surpresa fugaz, e hoje é exponencialmente amplificado por ferramentas de inteligência artificial capazes de fabricar realidades com precisão inquietante. Cria-se, assim, não um saber, mas uma perigosa ilusão de conhecimento que molda debates públicos, decisões e percepções sociais.
É justo reconhecer, contudo, que a patologização apressada desse consumo esbarra na complexidade da agência humana e na diversidade de suas motivações. Apontar o dedo para o “usuário passivo”, que desliza o feed ou se contenta com resumos de chatbots, ignora que a valoração da informação é multifacetada e culturalmente mediada. A busca por pertencimento, validação social ou até mesmo um entretenimento que desafie narrativas estabelecidas não pode ser simplesmente reduzida a um consumo “ruim” por um padrão que se arrisca a ser elitista. Ademais, exigir de “milhões de brasileiros” com tempo e recursos limitados o fardo irrealista de verificar exaustivamente cada fonte ou buscar “duas versões independentes” é transferir uma responsabilidade sistêmica para o indivíduo, mascarando as profundas disparidades de letramento digital e acesso a fontes diversas.
A verdade, no entanto, não é um bem relativo a ser moldado pela subjetividade ou pela conveniência do engajamento. A Doutrina Social da Igreja, inspirada por Leão XIII e Pio XI, ensina que a liberdade, para ser verdadeira, deve ser ordenada à verdade e ao bem. A proliferação da falsidade organizada ou da superficialidade ostensiva corrói a ordem moral pública, tal como advertiu Pio XII ao distinguir o “povo” da “massa” manipulável. A veracidade, enquanto virtude fundamental, não é um mero capricho jornalístico, mas o substrato necessário para a justiça e para a reta convivência. Quando a mentira se normaliza e o debate se esvazia em narrativas fabricadas, a própria capacidade de uma sociedade deliberar sobre o bem comum fica comprometida.
Assim, o cerne da questão não reside em demonizar o avanço tecnológico — a inteligência artificial, em si, não é um mal, mas uma potência que demanda ordenação —, nem em reduzir a agência humana a um determinismo algorítmico. O problema é a desordem, a falta de temperança no consumo e a carência de justiça na governança desse ambiente digital. É uma forma de loucura lógica que, como Chesterton ironizaria, nos oferece tantos caminhos que acabamos por não saber para onde ir, ou pior, por seguir o caminho mais barulhento e menos verdadeiro. A responsabilidade é difusa: ela parte do indivíduo, que deve cultivar a honestidade intelectual e a disciplina do discernimento, mas recai com peso maior sobre os que detêm o poder de desenhar as arquiteturas digitais e sobre as instituições que regulam o espaço público.
A edificação de uma cultura digital que sirva à dignidade humana exige, portanto, a virtude da justiça. Isso implica que as plataformas desenvolvam algoritmos que também ponderem o bem comum, a qualidade da informação e a proteção contra a manipulação, em vez de priorizar exclusivamente o lucro do engajamento. Demanda políticas públicas que promovam o letramento digital como parte essencial da formação cidadã, capacitando as pessoas não apenas a identificar a falsidade, mas a buscar a profundidade. E convoca a um compromisso coletivo com a verdade, que se manifesta na integridade de quem produz conteúdo, na prudência de quem o compartilha e na coragem de quem o questiona.
Não se trata de banir o contraditório nem de impor um controle orwelliano sobre a informação, mas de cultivar um ecossistema onde a verdade não precise competir em desvantagem crônica. A solução para a torrente de informação ruim não é o fechamento, mas a canalização virtuosa, o estabelecimento de diques de veracidade e a construção de pontes de justiça que permitam a livre circulação do bem e do verdadeiro. A verdadeira liberdade de expressão só floresce quando não é sufocada pela mentira ou pela superficialidade interesseira.
Que o homem, então, não se demita de sua vocação à verdade, nem do dever de construir um ambiente digital que reflita a ordem da razão e os valores da fé, em vez de replicar as paixões mais desordenadas. A jornada em direção à verdade, longe de ser um fardo elitista, é o caminho da maturidade e da libertação.
Fonte original: O Documento
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.