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Governo sem Rumo: A Paralisia Funcional da Frente Ampla

O governo atual exibe crise de comando, segundo Fornazieri, mas o DCO vê paralisia como funcional à frente ampla. Analisamos o custo social da inação e a traição à justiça.

🟢 Análise

A imagem de uma carruagem sem condutor, à deriva numa estrada esburacada, resume o dilema que tanto Aldo Fornazieri quanto o Diário Causa Operária (DCO) tentam, cada um a seu modo, decifrar sobre o governo atual. Fornazieri aponta o “desgaste, mal-estar social e perda de comando”, uma “embocadura errada desde o início” e “renúncias de protagonismo político”. Ele enumera os efeitos danosos dessa inação: famílias endividadas, preços elevados, juros mordendo o orçamento, a chaga da segurança pública, crises ambientais e um desconforto geral que se agrava diante da incapacidade de assumir “de forma assertiva” a pauta da corrupção e dos privilégios. É um governo que, segundo ele, carece de um “comando político estratégico” e de uma “narrativa persuasiva e mobilizadora”.

O DCO, contudo, eleva a aposta e vai além da superfície dos “sintomas”. Para o jornal, a “ausência de comando” não é uma falha tática remediável por ajustes de gestão ou mera incompetência técnica. É, antes, a “expressão política” de uma coalizão intrinsecamente amarrada, uma “frente ampla” que, por sua própria natureza, impede qualquer rumo mais definido ou programa transformador. Um governo montado para conciliar frações conservadoras, setores de mercado e caciques parlamentares, como Alckmin e Tebet, não poderia, por definição, oferecer um projeto forte e nítido. A falta de rumo, para o DCO, é “funcional à frente ampla”, uma paralisia deliberada, não um erro acidental.

A Doutrina Social da Igreja, ao analisar o governo da cidade, nos recorda que o Estado não é um fim em si mesmo, nem um balcão de negócios para facções. Sua razão de ser é a promoção do bem da cidade, da ordem justa e da paz social para o povo, e não a manutenção de uma massa de interesses conflitantes. Quando um governo, como bem observava Pio XII, se permite ser “dirigido pelo centro” ou se encontra “politicamente amarrado” a ponto de renunciar ao protagonismo e à capacidade de formular um projeto coerente, ele trai sua vocação primordial. A justiça exige que a autoridade pública exerça sua função com um olhar voltado para a totalidade da comunidade, e não para a preservação de arranjos internos que sacrificam a eficácia em nome da sobrevivência da aliança.

A virtude da justiça, portanto, impõe que o governo não se esquive de suas responsabilidades com o pretexto das “amarras” ou da “governabilidade”. Não é justo que a população arque com o custo de um endividamento crescente, de preços escorchantes ou de uma segurança pública em frangalhos, enquanto a cúpula do poder se dissolve em “defensivismo político”. Da mesma forma, a virtude da veracidade é maculada quando se é incapaz de assumir uma posição assertiva diante da corrupção e dos privilégios. Um governo precisa de clareza de propósitos e de honestidade nas ações para inspirar confiança e mobilizar a sociedade em torno de um destino comum, e não apenas para gerir o dia-a-dia da crise.

Aqui reside o paradoxo, tão caro a Chesterton: o governo, para sobreviver, assume uma forma que o incapacita para governar de fato. A “ausência de rumo”, que Fornazieri diagnostica como falha, é vista pelo DCO como uma funcionalidade, um mecanismo de auto-preservação da “frente ampla”. É a loucura lógica de um sistema que se legitima pela sua própria incapacidade de ação, transformando a paralisia em estratégia. A sanidade, porém, nos obriga a perguntar: para que serve uma carruagem que, por ter múltiplos condutores puxando em direções opostas, não consegue avançar para seu destino ou, pior, avança para lugar nenhum, enquanto os passageiros sofrem os solavancos da estrada?

A mera sobrevivência política, ou a ocupação do poder, não pode ser o único propósito de um governo que se pretende a serviço de uma nação. A crise de comando e de narrativa não é um problema estéril de comunicação, mas a manifestação visível de uma crise mais profunda: a ausência de um projeto de governo que se sobreponha aos interesses particularistas de seus componentes. Se a aliança política se torna a própria finalidade, sacrificando a capacidade de ação e o dever de promover a justiça social, o que resta é um vazio de poder disfarçado de estabilidade.

A verdadeira liderança, nesse cenário, não está em pilotar uma carruagem sem direção clara, mas em ter a magnanimidade de apontar um horizonte e a fortaleza de buscar os meios lícitos e justos para alcançá-lo, mesmo que isso custe a renegociação das amarras.

Fonte original: Diário Causa Operária

⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.

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