A arte de governar, se reduzida à mera gestão de calendários eleitorais, trai sua própria vocação. As recentes declarações do novo ministro da Secretaria de Relações Institucionais, José Guimarães, ao adiar a regulamentação do trabalho por aplicativos para “depois das eleições de outubro”, sob o pretexto de evitar um “vacilo” que seria explorado pela oposição, expõem uma preocupação legítima: a priorização da conveniência política sobre a urgência social e a justiça.
A Doutrina Social da Igreja, desde Leão XIII com a Rerum Novarum, reafirma a primazia da pessoa e do trabalho sobre o capital e o cálculo partidário. Pio XI, em Quadragesimo Anno, insistiu na necessidade de uma justiça social que assegure condições dignas ao trabalhador, promovendo associações livres e o salário justo. A regulamentação do trabalho por aplicativos não é uma pauta menor, sujeita a manobras táticas. É um tema crucial que afeta milhões de cidadãos, sua segurança, seus direitos e sua capacidade de subsistência. A falta de consenso, reconhecida pelo próprio ministro, não pode ser uma desculpa para o abandono ou o adiamento indefinido de um dever essencial do Estado. Ao contrário, é o convite para que a autoridade legítima exerça sua função de mediação e de busca diligente pelo bem comum, agindo com a virtude da justiça, mesmo diante de resistências e pressões.
O diálogo com o Congresso Nacional, indispensável para a governabilidade, deve ser pautado pela veracidade e pelo mérito das propostas, e não pela instrumentalização pura e simples para “ter vitórias necessárias” ou para “desidratar” opositores. A política, em sua essência, busca a ordem da cidade e a promoção da vida comum, não apenas a manutenção de um poder. A construção de palanques eleitorais para 2026, embora natural na dinâmica democrática, não pode desviar o foco da gestão dos problemas reais e presentes da na nação.
A crítica do ministro ao Banco Central, acerca da manutenção da taxa de juros elevada e o consequente endividamento das famílias, toca em um ponto sensível e real. A preocupação com a estabilidade financeira das famílias brasileiras é genuína e exige soluções eficazes e céleres. Contudo, o problema do endividamento é multifacetado, e atribuir a culpa a um único ator, desconsiderando a complexidade dos fatores econômicos sob controle governamental e a autonomia técnica das instituições, pode ser um reducionismo retórico. A edificação de uma economia justa exige a colaboração honesta de todos os agentes, com discernimento e responsabilidade compartilhada.
A vida de uma nação não se constrói sobre adiamentos estratégicos nem sobre a fuga do debate. A verdadeira força não reside na habilidade de postergar o confronto político para um momento mais “oportuno”, mas na coragem de enfrentar os problemas com determinação, mesmo que isso acarrete custos. É no agir reto e na busca incessante pela justiça que se encontra o tecido mais resistente da República.
Fonte original: globo.com
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.