No grande palco das nações, onde a política muitas vezes veste a máscara da normalidade mesmo em meio à ruína, as recentes eleições municipais na Palestina se apresentaram como um ato de fé cívica, uma promessa de ordem em um cenário de caos. Nesses dias, a população foi convidada a exercer seu direito de voto nas primeiras eleições locais desde o início do conflito em Gaza, um gesto que, à primeira vista, acende a esperança de normalidade e autodeterminação. Contudo, a veracidade impõe um questionamento mais profundo: estaria o povo palestino a edificar a sua casa, ou a apenas pintar a fachada de uma estrutura já comprometida?
É preciso reconhecer o esforço da Comissão Eleitoral Central e a genuína aspiração de eleitores como Mohammed al-Hasayna, que veem no voto uma “expressão da nossa vontade de viver” e um anseio pela “reconstrução de Gaza”. A celebração de Ramiz Alakbarov, da ONU, ecoa essa necessidade de restaurar alguma forma de ordem institucional. A Igreja sempre ensinou que a participação na vida pública e a organização da sociedade em corpos intermediários, como as municipalidades, são pilares de uma ordem social justa, em conformidade com o princípio da subsidiariedade. O que se ergue localmente, próximo à vida das famílias e das comunidades, é o alicerce de qualquer Estado.
No entanto, a virtude da justiça clama por mais do que um ritual democrático desprovido de força real. A Antítese expõe, com razão, a profunda limitação dessas eleições. Os vereadores eleitos, responsáveis por “serviços essenciais como água, saneamento e infraestrutura local”, não possuem poder legislativo, tornando-os meros administradores em um território sob forte controle externo. O que significa eleger um representante para “reconstruir Gaza” ou melhorar a infraestrutura quando a “ocupação israelense que controla Tulkarem” e a devastação da guerra limitam drasticamente sua autonomia? A voz de Mahmoud Bader, o empresário de Tulkarem, ressoa com amarga lucidez: “Sejam independentes ou de um partido, os candidatos não mudarão nada na cidade.”
Há uma ironia cruel na celebração de eleições quando a própria essência da escolha é cerceada. Chesterton, com sua perspicácia para desvendar as loucuras lógicas do mundo moderno, talvez notasse que não há nada mais desesperador do que a liberdade de votar sem a liberdade de decidir o que realmente importa. Não se trata apenas da limitada variedade de listas em cidades como Nablus, mas da ausência de um horizonte político nacional que enquadre e dê sentido ao esforço local. Desde 2006, eleições presidenciais e parlamentares estão suspensas, e Mahmoud Abbas, de 90 anos, permanece no poder desde 2005 sem renovação de mandato. Essa paralisia política, aliada à exclusão de candidaturas abertas de partidos com significativo apoio, como o Hamas em Gaza, aprofunda a fragmentação e a descrença.
Quando a Autoridade Palestina organiza pleitos que são apenas superficiais, enquanto as grandes questões de soberania, unidade e liderança nacional permanecem engavetadas, corre-se o risco de transformar o povo palestino, com sua legítima busca por um Estado, em uma massa desiludida. A justiça social exige representação plena e uma liderança capaz de enfrentar as causas estruturais da crise, não apenas gerenciar seus sintomas. A Doutrina Social da Igreja sempre alertou contra a estatolatria e a concentração de poder, que esvaziam a vida democrática e comprometem a dignidade das pessoas.
A verdadeira casa de um povo não se constrói com andaimes temporários de legitimidade aparente, mas sobre o alicerce da verdade e da justiça. Os votos depositados em Deir el-Balah, por mais simbólicos que sejam, não podem mascarar a urgência de erguer um edifício político nacional que seja, de fato, a expressão soberana da vontade de seu povo. A esperança palestina merece uma estrutura que resista, e não apenas uma fachada que se desfaça sob o menor sopro da realidade.
Fonte original: Terra
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.
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