Quando a panela de pressão da história ferve, não basta apontar o dedo para uma única válvula entupida. Em Cuba, o ar está denso com o cheiro de fumaça dos incêndios florestais em Pinar del Río e o silêncio pesado dos bairros mergulhados na escuridão, enquanto a promessa de pão fresco se esvai com cada apagão. Os fatos são inegáveis: usinas termoelétricas paralisadas, cidades às escuras por mais de doze horas, e um grito de fome que ecoa mais forte do que nos piores dias do “Período Especial”. A vida de um menor de 16 anos, Jonathan Muir, é espremida entre as grades da prisão e uma doença grave, apenas por ter ousado protestar contra a ausência de comida e luz. Daniel Alfaro Frías, de 62 anos, se consome em greve de fome na cadeia, um sacrifício que se une ao martírio de tantos outros presos políticos, cujos nomes e rostos são teimosamente negados por um regime que teima em mascarar a realidade.
A gravidade da situação interna é tamanha que seria um acinte moral desviar o olhar da responsabilidade do governo cubano. A ditadura castrista, em seu longo e desolador reinado de 67 anos, demonstrou uma clara tendência à estatolatria, sufocando as liberdades e esmagando os corpos intermediários que são a vitalidade de uma sociedade. É uma loucura lógica, como diria Chesterton, insistir que o povo cubano tem “combustível para propaganda” mas “para quase nada” de essencial, enquanto a saúde e a vida de seus cidadãos são consumidas em privações inauditas e em condições carcerárias desumanas. A negação de direitos básicos — como a liberdade de expressão, o devido processo legal e o acesso à saúde e alimentação — são feridas abertas na dignidade da pessoa humana, que nem a mais elaborada retórica pode encobrir.
Contudo, a verdade, que é o objeto da justiça, exige que se reconheça a complexidade do cerco que se abate sobre a ilha. A fonte factual, ainda que em sua linguagem militante, é obrigada a registrar que “o bloqueio do petróleo feito pelo governo americano ao regime em Cuba está causando problemas para a população” e que, desde janeiro, “apenas um carregamento de petróleo foi autorizado pelos EUA para Cuba”. Não se pode, sem incorrer em um reducionismo ideológico perverso, ignorar a assimetria de poder e o impacto devastador de um embargo econômico imposto por uma superpotência. A política externa americana, com suas sanções e a retórica de “mudança de regime” e “novo amanhecer” — chegando a insinuar intervenção militar, como no caso da declaração de Donald Trump — opera como um peso adicional que sufoca o povo, instrumentalizando seu sofrimento para fins geopolíticos.
A Doutrina Social da Igreja sempre defendeu que a autoridade legítima se exerce para o bem comum, não para a perpetuação do poder por si mesmo, nem para a imposição de um modelo de fora que não respeite a soberania de uma nação. A coerção econômica que inviabiliza o acesso a bens essenciais, ainda que justificada como pressão sobre um regime tirânico, é moralmente questionável quando o ônus principal recai sobre a população inocente. Não é justo impor um fardo tão pesado que a própria capacidade de sobrevivência do povo seja comprometida, ainda que as causas internas de má gestão e repressão sejam igualmente condenáveis. A fortaleza do povo cubano, que resiste a décadas de privações e abusos, não pode ser transformada em ferramenta de barganha.
As reuniões de alto escalão entre funcionários americanos e representantes do regime cubano, incluindo o neto de Raúl Castro, se inserem nessa trama complexa. Falar em “liberdades democráticas e econômicas” enquanto se mantém um embargo que asfixia a economia do povo é um paradoxo que exige clareza. A verdadeira diplomacia não instrumentaliza a fome nem as prisões políticas para forçar uma agenda, mas busca soluções que, primeiramente, aliviem o sofrimento humano e respeitem a autodeterminação, ainda que firmemente exigindo o respeito aos direitos inalienáveis.
A verdadeira justiça para Cuba não virá de slogans nem de tanques, mas do reconhecimento pleno da dignidade de cada cubano, livre para buscar o bem comum em sua terra, com a fortaleza de um povo que, por demais, já provou que pode resistir. A nação que se quer justa edifica-se sobre a verdade, não sobre a instrumentalização da dor alheia.
Fonte original: PetroNotícias
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.