O assassinato de Miguel Uribe Turbay, um pré-candidato à presidência da Colômbia, reverberou como um tiro de canhão no cerne da memória nacional. O evento não foi apenas mais uma estatística na longa e sangrenta cronologia colombiana; ele despertou um fantasma, lançando a campanha eleitoral de 2026 numa névoa densa de medo e insegurança. Voltamos ao passado, murmuram as ruas, enquanto as estatísticas frias, que mostram uma violência geral menor que em décadas passadas, mal conseguem acalmar a febre da percepção pública. A realidade é que os colombianos, assaltados pelo aumento quintuplicado das extorsões e pelo triplicar dos sequestros, sentem na pele a fragmentação da barbárie, e suas preocupações são legítimas e urgentes.
O problema, contudo, reside na distinção – ou na falta dela. A iniciativa presidencial da “Paz Total”, promovida pelo governo de Gustavo Petro, nasceu de uma intenção de superação histórica, buscando negociar com os múltiplos grupos armados remanescentes. Mas, como observam analistas locais, essa “vontade de paz” foi concedida indiscriminadamente, sem “linhas vermelhas pré-estabelecidas”, a grupos cuja própria definição os impede de almejar a paz genuína. A Promotoria, ao atribuir a morte de Uribe Turbay à Segunda Marquetalia – uma dissidência das Farc – expõe a falha moral e política: não se pode negociar como se fossem insurgentes políticos aqueles que, por sua natureza, são criminosos organizados, cujo número, como o do Clã do Golfo, inchou assustadoramente nos últimos anos.
Aqui reside um paradoxo chestertoniano: a busca por uma paz abrangente, se mal discernida, pode, ao invés de pacificadora, corroer a ordem, pois confunde a realeza social de Cristo com a tolerância ao crime. A Doutrina Social da Igreja, desde Pio XI, lembra-nos que a justiça social exige a firmeza do Estado em exercer seu legítimo monopólio da força, garantindo a paz e a segurança dos cidadãos. Não é dever do Estado, mas sua ruína, nivelar a distinção entre inimigo político e inimigo da ordem, ou entre a vítima e o agressor. Quando o governo concede à criminalidade organizada a mesma mesa de diálogo reservada a interlocutores políticos, desvirtua o sentido da negociação e enfraquece a própria ideia de justiça e soberania.
A verdadeira tragédia colombiana, hoje, não é apenas a violência em si, mas a “mistura de cenários” – como pontua María Victoria Llorente. Há o medo do retorno da perseguição política, o receio da perda da propriedade privada e a angústia diante do assalto na esquina de casa. Todos são receios genuínos. No entanto, sua fusão num caldo indistinto de pânico impede o discernimento e a veracidade na avaliação das causas. A percepção de insegurança não se associa diretamente à “Paz Total” para todos, mas o assassinato político opera como um catalisador, elevando a criminalidade comum ao patamar de ameaça sistêmica, embora suas raízes e soluções sejam distintas.
Os candidatos, por sua vez, parecem reféns dessa névoa. As propostas de endurecimento militar ou de continuidade da “Paz Total” são, para os especialistas, “as mesmas de sempre, aquelas que sabemos que não funcionam”. Isso acontece porque, antes de propor, é preciso diagnosticar com honestidade. Não há uma nova doutrina de segurança que distinga o exército pós-conflito do enfrentamento a grupos criminosos fragmentados. A eleição, nesse ambiente, corre o risco de se tornar menos um referendo sobre a capacidade de governar e mais um espelho da identidade política e de classe, como bem observou Juan Fernando Giraldo, esvaziando a prudência necessária para soluções concretas.
A Colômbia precisa resgatar a veracidade como bússola moral e política. Isso significa desagregar a violência: distinguir o crime organizado do levante político, o terrorismo puro da guerrilha com pautas ideológicas. O Estado tem o dever irrenunciável de defender seus cidadãos contra a extorsão, o sequestro e o assalto comum, com fortaleza e justiça, sem hesitar em aplicar a lei. E tem o dever de discernir quem é um interlocutor válido para a paz e quem é um criminoso que deve ser desarmado e punido. Um país não pode edificar seu futuro sob a constante ameaça da desordem, nem pela instrumentalização do medo. O desafio não é calar o fantasma do passado, mas encará-lo com a luz da razão e da justiça, exigindo de seus líderes uma magnanimidade capaz de oferecer não um slogan, mas um caminho de ordem real.
Fonte original: Correio Braziliense
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.
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